As estrelas de Jerusalém

E-mail enviado ao meu amigo Nilbberth, no segundo dia após ter chegado ao Oriente Médio. 

Estou hospedada numa guest house católica, anexa a um convento. Num bairro afastado de Jerusalém chamado Ein Kerem. Cheguei em Jerusalém ontem às três da manhã. Era shabbat. O convento, onde estou hospedada, tem um jardim imenso com rosas, margaridas, lavanda… Mas, na noite em que cheguei a Jerusalém, nada disso estava fácil de ver. Porque as noites em Jerusalém estão bem escuras esses dias. Não se vê a lua, apenas vi as estrelas porque o céu de Jerusalém é completamente limpo. E as estrelas de Jerusalém são outras estrelas. Não são estrelas como as nossas. São outras constelações, outras configurações. Um céu completamente novo. Estou aqui há dois dias e acho que, nesse mundo, nada pode ser mais crucial do que Jerusalém. O mundo inteiro e todas as suas contradições estão aqui. Há árabes e muçulmanos de todos os tipos. Há judeus de todos os tipos. E pouquíssimos cristãos. A maioria de nós é visitante. A maioria de nós anseia por uma boa acolhida. Somos todos peregrinos e estrangeiros em Jerusalém.

No convento, onde estou hospedada, algumas freiras vivem em clausura. Mas abrem um sorriso e nos abraçam quando nos encontram no café ou no pátio. Porque a clausura não é tão clausura assim. São uns amores, simpaticíssimas, ainda que ninguém as devesse conhecer. Elas nos levaram para ver um coral de judeus que canta música sacra cristã. Uma das contradições de Jerusalém. Assim como os árabes muçulmanos que tomam conta de tantas igrejas… Jerusalém é uma cidade que mexe com a sua cabeça…

Ficarei mais dias hospedada em Jerusalém, mas vou ao deserto e volto. Quando voltar, não tem mais lugar no convento. Estou sofrendo por antecipação. Esse convento é maravilhoso. Não quero ir embora. Fico no centro da cidade depois. Mas não sei se quero abandonar essa Jerusalém para além dos muros. Tirei fotos desfocadas do portão e do céu à noite já com saudades do que nunca foi meu. Estou apaixonada por este lugar, por Eim Kerem e por essa Jerusalém rural. Não queria que acabasse… Mas amanhã é outro dia.

Se der, continuarei compartilhando as aventuras.

(Abril/2015)

O maître mais famoso de Aruba

 

Se existisse um verbete para definir saudades no dicionário de papiamento (a língua, que ao lado do holandês, é o idioma oficial de Aruba), ele conteria a descrição perfeita do táxi do Charlie. Conhecemos o Charlie enquanto fugíamos de um bar cheio de borrachudos há alguns minutos de Oranjestad, pouco depois do maravilhoso pôr do sol da Divi Beach.

Não demorou muito para Charlie descobrir que éramos brasileiros e que poderia tentar desenferrujar o seu português capenga na corrida dali até Palm Beach. Demorou menos ainda para Charlie nos contar que ele, há alguns anos, fora ele o maître mais famoso de Aruba. Já estávamos há dias na ilha e, nessa altura do campeonato, já entendíamos bem os arubanos – todo mundo era o mais famoso de Aruba em alguma coisa. Já tínhamos, inclusive, conhecido o taxista que falava português mais famoso da ilha: o Papi. Este possuía uma propriedade no centro da Aruba, com granja e uma muda de feijão. Papi havia participado de um comercial de TV falando português e colecionava ditados populares brasileiros (nos recitou uns dez, começando por “uma andorinha não faz verão”). Disse que podia se casar com uma brasileira mais velha, gordinha – mandou avisar por aí. Ele também nos deu as primeiras lições de papiamento e falou bem devagar para provar que brasileiro pega rápido a língua do baixo Caribe. O problema é que só consigo me lembrar de Aruba ta bonita, que é auto-explicativo, e de “dushi”, que significa um monte de coisa boa. Mas vamos voltar ao taxi do Charlie…

“Valentino’s era o restaurante mais famoso de Aruba. The best! Everybody queria ir no Valentino’s”, conta Charlie no seu taxi imenso de sete lugares. “Todos queriam Charlie”, se orgulha da fama e segue explicando que o restaurante italiano não só apenas o mais famoso da década de 90, mas da História de Aruba. E Charlie que fala sempre na terceira pessoa (“Charlie era homem mais conhecido de Aruba, see?”, explica) pode te provar. Ele guarda no porta-luvas do carro uma série de fotografias impressas do antigo restaurante mais incrível da ilha. Todas elas em papel grande, tamanho A4. Há fotos da entrada, do amplo salão com decoração demodê dos anos 80 e de todos os inúmeros garçons de todas as nacionalidades – um deles, pernambucano, havia ensinado Charlie a falar o português.

– E o que aconteceu com o Valentino’s, Charlie?, pergunto.

– Marriott Surf Club. That’s what happened. Ofereceram millions, dono do Valentino’s disse sim. And GOODBYE, CHARLIE! – e cai na gargalhada.

O Surf Club faz parte da rede americana Marriott, que possui hotéis no mundo todo. Só em Aruba são três. Estamos hospedados em um deles. O Valentino’s foi demolido para dar lugar a piscinas, jardins com palmeiras, salas de ginástica, salas de massagem, ballrooms, cassinos… Porque o Marriott é um verdadeiro paraíso na Terra para qualquer turista, mas transformou a vida do Charlie em nostalgia. “Charlie fala sete línguas: papiamento, holandês, inglês, francês, italiano, português e alemão”. E, como um narrador de futebol, passa de uma para a outra e recita ditados, receitas de bolo, frases preparadas e sabe-se-lá-o-quê esse homem está falando… Tudo para impressionar o turista. Afinal, o que vale num país que vive de estrangeiros é o espetáculo. Charlie não fez faculdade, mas mandou os filhos para a Holanda para estudar – Aruba faz parte do reino holandês. Foram com bolsa do governo, esclarece. Falam todas as línguas, aprenderam na escola porque muitos idiomas fazem parte das disciplinas obrigatórias da rede de ensino do país. Por isso, Charlie fica chocado com os americanos. Como pode falar só um inglesinho mixuruca? Acha que é preguiça da gringaiada. Um idioma não pode ser suficiente. “Charlie is much more intelligent” e gargalha de novo. Eu digo para o Charlie que eu falo italiano.

– Io parlo meglio, provoca.

– Não sei não, Charlie. Parlo benissimo, sai?

Resmunga alguma coisa, “até parece”. Gargalha. Tolinha. Charlie é nostalgia, mas também é só alegria. E alegria e nostalgia devem combinar em papiamento. É que Aruba é a ilha da felicidade, como diz o slogan do governo. Muito bom viver aqui. E segue falando bem do primeiro ministro, da saúde e, termina a corrida, rindo e contando – imperdível – da sua sobrinha, a moça de 20 anos mais bonita de Aruba, ainda que não tenha ganhado qualquer concurso de miss. E precisa? Se Charlie está dizendo, não resta dúvida, né, minha gente?

Aruba

mergulho

Sem título

De vez em quando Deus me tira a poesia.

Olho pedra, vejo pedra mesmo.

O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando solta no espaço.

(Paixão, de Adélia Prado)

 

O atleta lesionado e a receita de bolo de fubá

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Há uma censura involuntária no ar quando o atleta lesionado aparece na porta da sala de pilates numa manhã fria de junho. No momento em que aquele homem grande e acima do peso pega seu colchonete, todas as mulheres parecem adentrar numa bolha de silêncio sob suas bolas, pesinhos e elásticos. Trocar receitas de pé de moleque ou contar piadas sobre como os homens devem obedecer calados dentro de casa (coisas que fazemos com frequência nas terças e quintas cedinho) não parece de bom tom diante dos gemidos e das lamúrias de um homem que diz ter descoberto a finitude do próprio corpo. Há algo de fúnebre num atleta lesionado. É como se seu próprio corpo, hoje disforme, velasse o futuro e virasse ele mesmo um caixão de quem um dia já foi. Não há sofrimento igual ao de um atleta lesionado. E as mulheres — acreditem! — têm dificuldade em lidar com homens sofridos. É um desconforto.

Levar as mãos até as pontas dos pés, para o atleta lesionado, é um desafio. Dói. Dói tanto que ele geme. Geme alto. Tão alto que marcamos o tempo do exercício pelos seus gemidos. E sussuramos o nome da sua lesão pela sala. Há quem diga que é uma hérnia de disco com um nervo prensado na vértebra 14. Há quem acredite que o problema é no quadril. Outras dizem que o negócio mesmo é o ombro. Mas não é a escápula? Eu vi ele tendo dificuldade naquele da escápula! Ninguém sabe ao certo. Quando ele menciona o quanto estes últimos meses o fazem sentir o peso da sua idade, alguém diz: “temos que respeitar o nosso corpo, não tem jeito mesmo”. E mais uma série de clichês. Outras tentam consolá-lo dizendo que sim, ele vai sair dessa. Ele precisa. Ele não faz parte disso aqui. Dessa aula. Desse alongamento. Dessa trilha sonora. Desses papos de terça e quinta cedinho. Ele precisa sair dessa.

Quando o silêncio parece incontrolável, a mais abusada decide tentar um tema novo. Fala da Dilma. Da corrupção, do PT. Mas ninguém aqui gosta de falar disso. A gente vem no Pilates para falar mal do marido (ainda que não tenhamos um) e rir das paranóias femininas. E trocar receitas. E falar de decoração. E da aula de Jump. Dos jardins do museu. E da coreografia de zumba.

Nenhuma mulher retruca. Deixa estar. Esquece a Dilma. Mas o atleta lesionado quer fazer amizade, se enturmar. E, do fundo da sua amargura, dispara comentários sanguinolentos contra o PT. A gente não gosta do PT, amigo, mas a gente é meio de esquerda. Alguém avisa que a gente é meio de esquerda? Só que o atleta lesionado é quase reaça. E menciona a ditadura. Vai ter Copa. Não vai ter Copa. Esse país é uma vergonha. Uma vergonha desde Fernando Collor. Dai-me paciência, Senhor. Respiramos fundo.

Enquanto isso, ao lado da pilha de colchonetes, a Lourdes diz para a Fátima: “te mando aquela receita de bolo de fubá pelo face depois, amiga”. A Fátima agradece baixinho. As duas olham, com pesar, pena e dó para aquele moço machucado. Se soubesse o nome dele, a Cida, de 77 anos, colocaria em intenção na missa no domingo. Pobrezinho. Esse cara precisa sair dessa. Oremos. Me retiro. Calada. E lamento, sem considerar jamais dizer isso em voz alta: “Que triste! Machucado e ainda votou no PSDB”. É muita depressão. Misericórdia, Senhor. Misericórdia.

 

Foto de khatawat

 

 

A arte de ser incoerente em Barcelona

Sagrada Família, Barcelona. (Foto: Vanessa D'Amaro)
Sagrada Família, Barcelona. (Foto: Vanessa D’Amaro)

Há quem acredite que a ventania espanhola seja exclusiva da região de La Mancha, como contam os filmes do Almodóvar. Mas o vento é feroz dos Pirineus ao Gibraltar, e dá as caras na Catalunya em um começo de primavera. Em Barcelona, venta. Venta demais. Venta tanto que aparece na previsão do tempo. “O que quer dizer esse símbolo?”, pergunto. “Quer dizer eu vai ventar amanhã”, me explica a minha prima, quem eu fui visitar. Previsão do tempo: ventania. Apenas. O vento da Catalunya é um baluarte. Ele não sopra. Ele uiva. Derruba sinais de trânsito de aço, levanta toldos, fecha torres e mirantes e, quando encanado, destrói a arrumação de leques da loja de souvenirs vizinha à Igreja da Sagrada Família. “Não gosto de dormir nesse vento”, me diz. Não acontece todo dia, mas é freqüente nessa época do ano. Os guias de viagem não te contam sobre o vento. Você é pego de surpresa, seja sul-americano ou europeu: o vento gela. Mãe e filha brasileiras se amontoam dentro do ônibus turístico e trombam — sem querer, sem prever — com mãe e filho britânicos que também concordam que “it’s just too cold and windy to be outside”. Peraí, Barcelona não era a pérola do mediterrâneo? Clima agradável? Destino de veraneio?

Moças de cabelos volumosos, sem alternativa, amarram seus cachos em rabos de cavalo no topo da cabeça. Enrolam seus pescoços em cachecóis e compram casacos novos, com capuz. Gorros não servem nesse vento. Fuligem e areia viram traves nos olhos dos turistas que se protegem com óculos escuros, mesmo neste tempo nublado. O vento não perdoa. Desvia a atenção no Parc Güell e faz turistas culparem o tempo por não amarem Gaudí. Tudo bem não amar Gaudí. Pode-se gostar de Barcelona sem gostar, necessariamente, de Gaudí. Mas talvez seja mais fácil amar Gaudí em dias de sol. Para gostar de Gaudí, tem que ter sol…

Gaudí, inclusive, é tema de toda e qualquer roda de turistas em Barcelona — ainda que não se ame Gaudí. Seja pelas obras, parada obrigatória no city tour, seja pelo seu atropelamento que é mencionado em TODO guia sobre a cidade. Gaudí foi atropelado por um tram na esquina da Gran Vía com a Carrer de Balién. Morreu três dias depois, no hospital. Uma tristeza. O ônibus turístico faz questão de citar essa informação, toda vez que ele faz a curva na avinguda — avenida, em catalão. Pobre Gaudí. Por isso, todo turista deve ter cautela ao atravessar a rua. Ainda que isso aqui seja a Europa. Em Barcelona, nunca se sabe quando um tram pode aparecer. “Aqui, atropela-se gente. Cuidado”, alerto minha mãe.

Talvez por ele ter sido um gênio, seja tão caro entrar em qualquer coisa que Gaudí tenha projetado nessa cidade. Ainda que não se ache grande coisa ou valha os quinze euros, às vezes até mais. Entrar na Sagrada Família é fundamental. Ela é mil vezes mais bonita por dentro. A luz, as cores, o teto que alcança o céu… Tudo emociona, o que é raro na obra de Gaudí (a esta altura do texto, eu não preciso explicar a vocês que eu não sou muito fã do arquiteto, certo?). Amei a Sagrada Família. Não achei que iria amar, visto que eu não acho o Gaudí… Vocês já entenderam, certo?

Me acho, por vezes, antiquada quando confesso que meu coração disparou mesmo pelo bairro gótico e sua catedral, ou pela zona portuária, ou pela Barceloneta e suas areias artificiais, ou pelo Montjuïc, ou pela plaça Catalunya — com um bom ç, como manda o idioma catalão. Aliás, que coisa incrível que é a língua catalã! Tão mais interessante do que Gaudí…

Mas confesso para vocês: há grandes chances de minha implicância com Gaudí ser fruto de um desejo incontrolável de tentar não ser somente uma turista standard. Apenas digo que pode ser fruto do mesmo mau humor de que padeço quando minha mãe sugere dar uma olhada em uma loja de souvenirs. Eis que eu resmungo: “Você não precisa desse leque”; “Tanto imã, para quê?”; “Essa camiseta é horrorosa, só vai servir para dormir”; “Você acha isso legal agora, quando chegar em São Paulo vai se perguntar porque gastou tanto dinheiro com um negócio tão cafona…”. Esta última, inclusive, é minha incoerência preferida de toda a viagem. Eu digo isso enquanto tiro dez euros da bolsa e compro duas cúpulas de abajur com reproduções de vitrais do Gaudí… E, veja bem: eu nem morro de amores pelo cara!

Barajas, el aeropuerto

Se tem uma coisa que viajante nenhum para para olhar em Barajas, o aeroporto internacional de Madri, é o teto de bambu — com certeza, o maior trunfo arquitetônico do projeto de Richard Rogers. Esse teto é um primor. Mas ninguém está nem aí para ele. Em Barajas, as pessoas correm: de salto, de tênis, de sapatilha, de havaianas, de botas de cowboy. Só se corre em Barajas — seja de mochila, seja de mala de rodinhas. Barajas é pura endorfina porque todo mundo tem uma conexão para pegar em um terminal distante. E as placas vêm com as indicações mais o tempo de caminhada: “RSU — 24 minutos”. É tudo longe. É tudo do outro lado do planeta — e ele, com certeza, está inteiro em Barajas fazendo conexão.

Correm judeus ortodoxos, correm europeus com barbas longas e trançadas, correm americanos com tênis Nike e calças vermelhas em grupos de dez pessoas, correm drag queens sul-americanas, correm moças árabes de véus na cabeça, correm caras com pochetes penduradas no pescoço, correm assessoras de imprensa do Brasil que me encontram, de férias, e param apenas para um minuto de prosa. Um minuto contado, veja bem. Não temos tempo para mais do que isso.

Poucos são aqueles que não correm, ou param de correr, quando encontram o painel com os horários e portões de embarque. Em Barajas, esse é o único jeito de saber para onde correr, ou quando é hora de parar. Raríssimos, são aqueles que tiram um cochilo nas cadeiras de alumínio. Estes recebem olhares de reprovação, afinal, um cochilo é um verdadeiro pecado para os viajantes maratonistas de Barajas.

Entre aqueles que esperam, poucos parecem tranquilos. O viajante padrão se posiciona em frente ao painel de voos, que checa a cada vinte e dois segundos. Quem não faz isso é o moço britânico, alto, loiro que lê um moleskine todo preenchido com uma caligrafia grande. Ele parece o designer inglês Tom Price. Talvez eu devesse tê-lo cumprimentado, caso realmente fosse mister Price. Mas quem disse que ele vai se lembrar da jornalista brasileira para quem contou sobre a sua mãe numa festa de gente rica na Alameda Gabriel Monteiro da Silva?

Paro em frente ao painel. Estou aqui há vinte minutos, mas é tempo suficiente para ser tratada como especialista pela família brasileira que vai passar as férias em Roma. Explico como checar o painel e para onde correr quando o portão de embarque for anunciado. Eles me agradecem, dizem que é muito difícil fazer isso pela primeira vez. Eu concordo, com a minha cara de veterana — aquela que conhece bem o aeroporto apenas por já ter corrido por estes corredores por meia hora há dois anos, sem sequer ter reparado no teto de bambu do Richard Rogers. Compenso desta vez. Não paro de olhar para o teto. Faço isso até o painel nos indicar o portão J61. Pego a minha mala de rodinhas, prendo o meu cabelo e corro. Desta vez, calçando um tênis de corrida. Vim preparada. Tem que ser assim em Barajas.

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