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Arquivo mensal: novembro 2012

Para Marly, Tooge, Karina e Rodrigo.

Eles pintaram o forro de madeira de branco. Ela me contou quando veio nos visitar, trouxe doces, disse que quer ser amiga dos vizinhos, que a gente precisa ver como a reforma ficou. A casa mudou tanto, ela disse. Eu não sei se eu quero ver. Não sei se me acostumo com o forro branco. Ele nunca foi branco. Não combina. Eles colocaram uma grade perto da piscina, trocaram a cor da fachada. Eles querem desmontar a churrasqueira e construí-la do zero em outro lugar da casa, talvez perto da piscina. Eu queria dizer que o lugar onde ela está é ótimo. Vocês tiravam os carros, montavam mesas na garagem e a gente se divertia comendo, bebendo e brincando com as crianças e os cachorros. Está perto da cozinha, fica fácil trazer e levar as bebidas. Eu queria que eles entendessem.

Às vezes, eu fico pensando naquela saleta sem o piano. Deve estar tão estranho. E eu fico me lembrando de quando eu tinha 7 ou 8 anos de idade e sentava com vocês do lado do aparelho de som para ouvir Equilíbrio Distante, do Renato Russo. Lembra? Eu sempre quis entender aquelas letras, achava que aquela língua tinha muitos i’s. Acho que foi por isso que anos mais tarde eu me matriculei no curso de italiano. Deve ter sido.

Eu fico curiosa para saber se aquela infiltração no porão foi resolvida. A gente assistiu tantos filmes juntos, deitados no chão. E vocês, às vezes, jogavam videogame também. Lembra quando a dona Neide pisou no cabo e resetou a fita que vocês ficaram dias jogando?

Outro dia, eu ouvi uma amiga deles dizendo que aquela planta no vaso da varanda era linda. A vizinha respondeu que a planta veio com a casa. E eu fiquei pensando que aquela árvore testemunhou todos os nossos jogos de carta, as nossas trapaças, os nossos trucos. Ela ficava ali do lado da mesa de ferro. O que será que aconteceu com aquela mesa?

Os novos vizinhos têm crianças. São dois meninos. Eu, às vezes, os vejo pelas frestas do muro. Eles são mais novos do que nós éramos. Eles correm pelo jardim e nem sabem que existem calangos embaixo da grama. Quantas vezes esses calangos não caíram dentro da piscina? Eles ainda não sabem que isso acontece.

Falando em frestas, eu sinto falta daquela abertura no muro que fazia com que as nossas duas casas se comunicassem. Eles nem sabem que essa abertura existiu. Eles também não sabem que o chão do corredor externo é pintado de verde porque a gente jogava bola ali. É tão estranho. Às vezes, eu acho que sou mais dona daquela casa do que eles. É que ela guarda tantas memórias minhas que eu acho injusto ter que me fazer de indiferente. A gente viveu tantas coisas juntos: aniversários, dias de preguiça na piscina, ralados de bicicleta na entrada do carro, festas de fim de ano. Essa casa faz parte da minha infância. Eu não estava lá quando vocês receberam o caminhão de mudança. Ainda assim eu chorei quando vi que vocês não voltariam mais. Eu sinto saudades de vocês. Eu sinto saudades de nós, de mim, daquela época que a gente viveu. Eu sei que foi a melhor coisa a ser feita. Eu concordo com vocês, vocês tinham razão. Eu sei que eu não deveria me sentir assim, que tudo isso é bobagem, que já foi o nosso tempo, que a gente deveria só olhar para frente e deixar o passado no passado. Mas eu sinto essa dificuldade de crescer quando eu me lembro que nós fomos tão felizes. Eu não consigo aceitar menos felicidade. Tinha que ser para sempre daquele jeito. Para sempre. Às vezes, eu acho que se nós conseguíssemos viver pelo menos um dia de novo todos nós juntos, saudáveis, felizes, toda essa angústia iria embora. Mas eu sei que o tempo não volta mais, nunca mais. Eu sei que eu preciso me acostumar com isso. Eu sei. As coisas mudam, eu preciso aceitar. Eu vou aceitar.

A única coisa que eu posso fazer agora é rezar para que as crianças descubram que os calangos caem na piscina. Porque eles caem, elas precisam saber disso.

“I just met a wonderful new man. He’s fictional but you can’t have everything”

[Trecho de “Conversas com Woody Allen”, de Eric Lax]

Como era a primeira ideia para A Rosa Púrpura do Cairo?

Quando tive a ideia, era só um personagem que desce da tela, grandes brincadeiras, mas aí pensei, onde é que isso vai dar? E me veio a ideia: o ator que faz o personagem vem para a cidade. Depois disso, a coisa se abriu feito uma grande flor. A Cecilia precisava decidir e escolher a pessoa real, o que era um passo à frente para ela. Infelizmente, nós temos de escolher a realidade, mas no fim ela nos esmaga e decepciona. Minha visão da realidade é que ela sempre foi um lugar triste para se estar [ele faz uma pausa, solta uma pequena risada], mas é o único lugar onde você consegue comida chinesa.

Uma vez você me disse que tinha empacado depois de ter a ideia do personagem que sai da tela.

A inspiração que tive foi a de um personagem [vivido por Jeff Daniels] que sai da tela, mas não consegui dar prosseguimento. Escrevi cinquenta páginas e desisti, deixei de lado. Só voltei à história quando entendi que o ator verdadeiro fica perturbado por isso. Então ele vai à cidade e a garota [Mia Farrow] também se apaixona por ele, assim como se apaixonou pelo personagem dele na tela, é forçada a escolher, escolhe o personagem real e ele a magoa – isso foi o que fez a história para mim. Mas até então eu tinha cinqüenta páginas em que o sujeito saía da tela, e me divertia um pouco com aquilo, mas era só isso.

No fim, a realidade sempre te pega.

A minha percepção é que você é forçado a escolher a realidade em vez da fantasia, e que a realidade acaba por machucar a gente, e que a fantasia não passa de loucura.

Que escolha!

É, a vida é uma situação de perder ou perder.

A garoa estava finíssima, nem precisava de guarda-chuva. Mas os dois abriram um meio transparente, com detalhes em amarelo, e caminhavam juntinhos sabe-se lá para onde. Ela vestia uma camiseta listrada em branco e preto e uma calça pula-brejo, que reforçava ainda mais a sua altura. Ele tinha uma barriguinha saliente, dessas de chope, e sofria de calvície. Ali na calçada da rua Huet Bacelar, ele colocou as mãos sobre os cabelos escuros dela e a beijou. No meio da garoa, bem rapidinho. Ela, pega de surpresa, retribuiu e olhou para baixo. Eles são perfeitos, pensei. Os dois nem me notaram e eu fui embora torcendo para ele continuar ficando careca e para ela sempre ter mau gosto para se vestir. Amor de verdade é assim.

A foto é do Denis Defreyne

Que o antônimo de esperançoso é cínico dicionário nenhum te conta. O cinismo, esse sentimento dos infernos, chega de uma maneira sorrateira, num sorriso descarado ou num olhar esnobe. Que o cinismo é o destino de muitos sonhadores, isso também livro de auto-ajuda nenhum te conta. Talvez uma música da Joni Mitchell esclareça a questão. Mas só se for você for cínico o suficiente para prestar atenção.

[Trecho do livro “Conversa na Sicília”, de Elio Vittorini]

Messina Italia - antiga Depois o Grande Lombardo falou de si mesmo, vinha de Messina, aonde fora consultar um especialista por causa de uma doença complicada que tinha nos rins, e voltava para casa, em Leonforte, era de Leonforte, no Val Demone, entre Enna e Nicósia; era um dono de terras, tinha três belas filhas mulheres, disse bem assim, três belas filhas mulheres, e tinha um cavalo e montado nele andava por suas terras, e então acreditava, tão garboso e altivo era o cavalo, ser um rei, mas não lhe parecia que isso fosse o bastante, acreditar-se um rei quando montava o cavalo; queria ter um outro conhecimento, assim disse, queria ter um outro conhecimento, e sentir-se diferente, com algo novo na alma, daria tudo que possuía, e o cavalo também, as terras, para sentir-se mais em paz com os homens, como um deles, assim disse, como um que não tem nada de que se reprovar.

“Não que eu tenha qualquer coisa pessoal de que me reprovar”, disse. “Absolutamente nada. E nem sequer falo no sentido cristão… Mas não pareço estar em paz com os homens.”

Queria ter uma consciência limpa, assim disse, limpa, e que o chamassem para cumprir outros deveres, não só os habituais, outros, novos deveres, e mais elevados, para com os homens, porque cumprir os costumeiros não trazia satisfação alguma e ficava como se não tivesse feito nada, descontente consigo mesmo, desiludido.

“Creio que o homem está maduro para algo mais”, disse. “Não somente para não roubar, não matar etc., e para ser um bom cidadão… Creio que está maduro para outras coisas, para novos, outros deveres. É isso que sentimos, creio eu, a falta de outros deveres, outras coisas, a cumprir… Coisas a fazer para nossa consciência com um novo propósito.

Eu desembarquei na Ilha de Capri, sul da Itália, por volta do meio dia num domingo, 24 de junho, dia de São João Batista. Eu tinha acordado às quatro horas da manhã em Roma. Passei horas dentro de um ônibus desconfortável com meus pais e meu irmão a caminho de Pompéia, região da Campania. Visitamos o sítio arqueológico na primeira hora da manhã (isso é tema para outro texto) e partimos para o porto de Nápoles, onde embarcaríamos finalmente para Capri em uma espécie de catamarã de alta velocidade. Uma hora mais tarde, estávamos todos na minúscula marina da ilha. O mar era azul marinho, como só o Mediterrâneo sabe ser. As casas branquinhas eram perfeitas até nas suas infiltrações, bolhas e pinturas mal tratadas pela maresia. Capri, como Nápoles, exibe as roupas dos seus moradores em varais extensos pelas janelas. Era um cenário de sonhos e eu achei que viveria um dia incrivelmente feliz – se sobrevivesse ao cansaço e às altas temperaturas.

Capri fervia a quarenta graus nesse dia. Pegamos um micro-ônibus para subir a montanha e conhecer Annacapri (que significa “acima de Capri”, em grego), a cidadezinha com a vista mais deslumbrante de todos os tempos. Fomos almoçar. Macarrão, carne de porco, suco de limão e eu começo a chorar copiosamente sob a refeição. “Eu quero tanto viver este dia, quero tanto ser feliz hoje. Esse lugar é lindo, talvez eu não volte aqui nunca mais… mas eu estou tão cansada, tão cansada que eu não sei se vou ser feliz hoje, sabe?”. Minha mãe, que sabe reconhecer uma moça no auge da TPM, colocou as mãos sobre os meus ombros e me disse que tudo ficaria bem. Meu pai não entendeu nada. Eu não conseguia parar de chorar. Capri é talvez o lugar mais incrível que eu já vi, mas eu estava tão cansada que eu não sabia se conseguiria aproveitar. Hormônios. E chorei. Chorei. Chorei. Chorei. Saindo do restaurante, procuramos o mirante para ver Sorrento e a costa Amalfitana, as duas outras divas italianas. Paisagem de sonho. Dia perfeito. Lágrimas. Lágrimas. Lágrimas. Eu quero tanto não deixar esse dia morrer. Eu quero ser feliz hoje. Dentro do micro-ônibus de volta à praia, um dominicano animadíssimo começou a cantar “Ai, se eu te pego” do meu lado. O motorista italiano, que conduzia displicentemente pelas curvas estreitíssimas da ilha, resolveu nos apresentar seu repertório e colocou a música de Teló em bom português no mais alto volume. Todos os passageiros do micro-ônibus começaram a dançar desastradamente. Foi quando eu soube que não era dia de drama.

Na marina, pegamos uma pequena lancha para dar a volta na ilha e ver o famoso cartão postal de Capri: as duas pedras que se levantam do mar Tirreno como verdadeiros titãs. O condutor da embarcação era um italiano careca, bronzeado, chamado Massimo – tinha que ser. Quando entramos na gruta verde com a lancha, Massimo foi pró-ativo. “Senza gli occhiali, Signori! Senza gli occhiali, per favore, Signori”. Até os mais teimosos atenderam a súplica de Massimo e os óculos de sol saíram dos nossos rostos, que agora contemplavam o teto da gruta verde que parecia um céu estrelado, colorido, brilhante, como fogos de artifícios. Incrível, perfeito, emblemático. De vez em quando, eu penso nessa imagem assim do nada, no meio do dia, só para garantir que eu não vou me esquecer dessas cores nunca mais. Senza gli occhiali, Massimo, grazie. E eu, que já não chorava há mais de uma hora, tentei me conter. Só que as lágrimas já arrebentavam na minha pálpebra inferior. As gaivotas lindas e branquinhas faziam um V no céu enquanto voavam. Seguindo o rastro delas, eu vi aquelas pedras imensas, lindas, incríveis, mágicas. Eu não podia mais me conter. Chorei de novo. De felicidade. De amor. De admiração. De vontade de ficar ali para sempre vendo as pedras, as gaivotas e o azul do mar Tirreno. Ah, como eu me apaixonei pelo Tirreno! Eu devia ter ficado ali para sempre. Para sempre! Como aquelas gaivotas. Eu estava chorando de novo, tão feliz, tão emocionada. Era disso que eu estava falando. Era isso que eu queria viver ali. Aquela emoção, aquela felicidade. Nessa hora, eu sabia que o cansaço era o que menos importava. Eu vivi aquele dia do jeito que eu queria viver. Eu não queria descer daquele barco. O problema é que as minhas histórias de amor sempre chegam ao fim. Antes de perceber, eu via Capri da popa do catamarã. De longe, eu observei aquela ilha que guarda o sentimento de completude mais intenso que eu já vivi…

As lágrimas de felicidade ainda me visitaram no caminho de volta para Roma naquela noite. E eu comecei a rir, enquanto chorava, de tão ridículo que foi passar o dia em lágrimas no meio do Mediterrâneo, com quarenta graus de temperatura. Nada foi ameno naquele domingo. Nada. Eu quero voltar para Capri um dia. Quero voltar sorrindo. Mentira, eu quero chorar de novo. Quero ser ridícula de tanta felicidade, de tantos hormônios, de tantas emoções. Eu quero viver uma tempestade de sentimentos. Quero cair em lágrimas de nostalgia. Não tem graça viver com medo da felicidade. Quero chorar sempre. Quero viver Capri de novo, em vários lugares do mundo, se possível. Sempre senza gli occhiali, como eu aprendi com o Massimo.

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