A casa dos vizinhos

Para Marly, Tooge, Karina e Rodrigo.

Eles pintaram o forro de madeira de branco. Ela me contou quando veio nos visitar, trouxe doces, disse que quer ser amiga dos vizinhos, que a gente precisa ver como a reforma ficou. A casa mudou tanto, ela disse. Eu não sei se eu quero ver. Não sei se me acostumo com o forro branco. Ele nunca foi branco. Não combina. Eles colocaram uma grade perto da piscina, trocaram a cor da fachada. Eles querem desmontar a churrasqueira e construí-la do zero em outro lugar da casa, talvez perto da piscina. Eu queria dizer que o lugar onde ela está é ótimo. Vocês tiravam os carros, montavam mesas na garagem e a gente se divertia comendo, bebendo e brincando com as crianças e os cachorros. Está perto da cozinha, fica fácil trazer e levar as bebidas. Eu queria que eles entendessem.

Às vezes, eu fico pensando naquela saleta sem o piano. Deve estar tão estranho. E eu fico me lembrando de quando eu tinha 7 ou 8 anos de idade e sentava com vocês do lado do aparelho de som para ouvir Equilíbrio Distante, do Renato Russo. Lembra? Eu sempre quis entender aquelas letras, achava que aquela língua tinha muitos i’s. Acho que foi por isso que anos mais tarde eu me matriculei no curso de italiano. Deve ter sido.

Eu fico curiosa para saber se aquela infiltração no porão foi resolvida. A gente assistiu tantos filmes juntos, deitados no chão. E vocês, às vezes, jogavam videogame também. Lembra quando a dona Neide pisou no cabo e resetou a fita que vocês ficaram dias jogando?

Outro dia, eu ouvi uma amiga deles dizendo que aquela planta no vaso da varanda era linda. A vizinha respondeu que a planta veio com a casa. E eu fiquei pensando que aquela árvore testemunhou todos os nossos jogos de carta, as nossas trapaças, os nossos trucos. Ela ficava ali do lado da mesa de ferro. O que será que aconteceu com aquela mesa?

Os novos vizinhos têm crianças. São dois meninos. Eu, às vezes, os vejo pelas frestas do muro. Eles são mais novos do que nós éramos. Eles correm pelo jardim e nem sabem que existem calangos embaixo da grama. Quantas vezes esses calangos não caíram dentro da piscina? Eles ainda não sabem que isso acontece.

Falando em frestas, eu sinto falta daquela abertura no muro que fazia com que as nossas duas casas se comunicassem. Eles nem sabem que essa abertura existiu. Eles também não sabem que o chão do corredor externo é pintado de verde porque a gente jogava bola ali. É tão estranho. Às vezes, eu acho que sou mais dona daquela casa do que eles. É que ela guarda tantas memórias minhas que eu acho injusto ter que me fazer de indiferente. A gente viveu tantas coisas juntos: aniversários, dias de preguiça na piscina, ralados de bicicleta na entrada do carro, festas de fim de ano. Essa casa faz parte da minha infância. Eu não estava lá quando vocês receberam o caminhão de mudança. Ainda assim eu chorei quando vi que vocês não voltariam mais. Eu sinto saudades de vocês. Eu sinto saudades de nós, de mim, daquela época que a gente viveu. Eu sei que foi a melhor coisa a ser feita. Eu concordo com vocês, vocês tinham razão. Eu sei que eu não deveria me sentir assim, que tudo isso é bobagem, que já foi o nosso tempo, que a gente deveria só olhar para frente e deixar o passado no passado. Mas eu sinto essa dificuldade de crescer quando eu me lembro que nós fomos tão felizes. Eu não consigo aceitar menos felicidade. Tinha que ser para sempre daquele jeito. Para sempre. Às vezes, eu acho que se nós conseguíssemos viver pelo menos um dia de novo todos nós juntos, saudáveis, felizes, toda essa angústia iria embora. Mas eu sei que o tempo não volta mais, nunca mais. Eu sei que eu preciso me acostumar com isso. Eu sei. As coisas mudam, eu preciso aceitar. Eu vou aceitar.

A única coisa que eu posso fazer agora é rezar para que as crianças descubram que os calangos caem na piscina. Porque eles caem, elas precisam saber disso.

3 comentários
  1. rolicco disse:

    Vanessa, isso é muito, muito lindo.

    • VanessaD' disse:

      Roliço, querido. Quanto tempo, hein? Fiquei muito feliz com o seu comentário. Muito mesmo. Muito obrigada! 🙂

  2. marcinhacarini disse:

    Se eu fosse os seus tios e lesse esse post, eu ia à noite na casa dos vizinhos, e falava: “O negócio é o seguinte: comprou a casa, leva a gente de brinde. Vocês ficam, mas a gente também”. E pronto, tava tudo resolvido. Vocês, eles, e a família com as crianças para salvar os calangos que caírem na piscina. Beijocas

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