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Arquivo mensal: dezembro 2012

place-vendome

O seu nome ecoa na minha cabeça enquanto eu te espero no lobby do hotel Metropol. Está frio em Paris, cinco graus. Não era para estar tão frio. Eu visto um casaco pesado por cima de um vestido preto com decote em V e manga comprida. Eu uso o cabelo da Veronica Lake. Você aparece de calça jeans, camiseta e blazer. Você está com um cachecol xadrez e uma boina idiota que você comprou em uma ladeira de Mont Martre.

Nós descemos a Rue de Maubeuge de braços dados tarde da noite. A gente passa pelo café em que eu aprendi a pronunciar eau, água. O supermercado Champion já está fechado. Nostalgia. A gente caminha na Maubeuge até chegar na rue La Fayette. A gente passa pela galeria e vê a Ópera Garnier pelos fundos. Você não acha a menor graça nisso. Eu adoro descobrir o prédio pelo lado errado. Eu gosto tanto dessa Ópera. Você sabe disso. Você me puxa pela mão e me leva até os degraus da entrada. É quase um tapete vermelho. Meu coração acelera. Eu sou Maria Callas em noite de estreia. Nós dois rimos do meu devaneio. Isso é ridículo. Podia ser noite de ópera. Podia. E saímos gargalhando juntos pela rue de la Paix.

Quando nos damos conta, já estamos na Place Vendôme. Está frio. Eu tiro o meu casaco e jogo na calçada. Ele não vale nada aqui na frente da Dior. Eu danço por nós dois. Você não hesita. Você dança junto. Assim sem música mesmo. Você toca guitarra imaginária, eu toco violão. Eu danço MPB. Você dança rock progressivo.

Eu começo a gargalhar da nossa falta de ritmo. Os seguranças franceses do Ritz viram os olhos para nós dois. Turistas. Você ri comigo, tira o seu cachecol, coloca ele no meu pescoço, me pega pela cintura e encosta a sua testa na minha. Você está tão perto que fica fora de foco. A gente dança um bolero. Eu imagino No me platiques mas; você acha que é Besame mucho. Eu canto com o meu espanhol capenga. Não tem nada de parisiense nisso. Nós dois somos ridículos. Um casal passa de bicicleta em direção a rue de Castiglione e ri da nossa criancice. E eu vou fazer trinta anos, acredita? Quase 30. Falta pouco para eu chegar lá. Não falta nada para você. Mas hoje nós temos quinze, como eu tinha quando estive aqui pela primeira vez. Eu e você. A mesma idade. Só por hoje. Sua boina idiota cai no chão enquanto você me rodopia perto do Obelisco. Eu sorrio. Você me tomba para a direita. Olho no olho. Eu faço tudo o que você disser. Você devia se casar comigo. O que é que a gente está esperando? Sua boca chega a meio centímetro da minha. Meus lábios te esperam. Você sorri. Meu despertador toca.

Eu acordo com os lábios em febre. Levanto de pijamas e vou até a cozinha tomar um copo d’água. Nós não estamos mais em Paris. Eu estou sozinha. Você ficou no I arrondissement. São seis e doze. Voltei a ter 25 anos. Quando a água cair no estômago, vai ser só terça-feira. Vai ter trânsito. Vai ter reunião às três da tarde. E eu só vou me lembrar que eu sonhei de novo com Paris, com aquele hotel, com a rue de Maubeuge. Como sempre. Eu já não me lembro mais de você, de nós dois. A vida é cruel. O cotidiano esmaga os nossos sonhos. A realidade é estreita. Às dez da manhã no elevador da firma, eu aperto o quinto andar e eu já não me lembro de mais nada. Engraçado sonhar com Paris. Lábios ardendo. Por que será? Que coisa louca! Opa, é o meu andar…

foto de jean louis zimmermann. 

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