arquivo

Arquivo mensal: fevereiro 2013

Ela não entendia aquela cena do helicóptero. Assistiu milhares de vezes para ver se aquilo fazia algum sentido. Pausava, voltava o filme. O que será que ele quer dizer com isso? Dizem que tudo gira em torno da falta de comunicação. Essa é a temática do Fellini nesse filme. Mastroianni quer o telefone, o barulho do helicóptero é muito alto, ninguém se comunica. Ninguém se escuta. Ninguém se entende. Repetidamente. Ele gostava do Fellini. Ela passou a gostar. Talvez mais do que ele. Gostou tanto que passou a amar aquele final – quando a moça fala e ele não escuta. O barulho das ondas é alto demais. Ninguém se entende. Ah, que filme! É a amarração perfeita, é emocionante, sabe? Mas ele não estava nem aí para o que ela achava. Até se irritava quando ela falava com paixão sobre o Fellini, como se ela tivesse tomando posse de algo que fosse exclusivamente seu. E não era só isso: ela leu todos os livros que ele indicou. De Hegel a Woody Allen. Tudo. Aquilo incomodava. Ele gostava de mocinhas inteligentes, mas não era para tanto. Era intelectualidade demais para o gosto dele. Por que ela não podia se preocupar em ser só bonita, como todas as outras garotas? Eles não duraram muito. E ela começou a sair com um maratonista. Decidiu começar a correr. Em dois meses, conseguiu correr cinco quilômetros. Excelente para uma iniciante, ele disse. Passou a se alimentar melhor, a se vestir com mais elegância. É que a ex dele era modelo. A insegurança a deixou linda, quase uma artista de cinema. Ainda lia nas horas vagas, ainda gostava do Fellini. A única diferença é que agora ela era bonita demais. Tão bonita que o maratonista passou a ter um ciúme descomunal. Ficou louco. Começou a atormentá-la. Ela não agüentava mais. Era preciso dar um basta. Chega. Acabou. Não durou muito também. E ela ficou sozinha tentando entender como nenhum dos dois nunca percebeu que ela só queria ser boa o suficiente. Falha de comunicação. Como em La dolce vita

Hoje, ela vai assistir outro filme do Fellini. Noites de Cabíria. É que ela está se sentindo meio Cabíria (tirando a parte da prostituição, é claro). Tudo o que ela quer é chegar àquela cena final. Porque ela sabe que não existe nada tão poético quanto aquele fim. Nada tão sublime. Porque a vida continua. É tudo o que aquela cena diz: a vida sempre continua…

[Trecho do livro “Clarice Lispector – Entrevistas“, um dos melhores presentes que eu já ganhei. Esta entrevista é tão linda que merece ser guardada e registrada]

Clarice Lispector entrevista Vinícius de Moraes

– Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?

-Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

– Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.

– O fato de querer me comunicar tanto.

– Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?

– Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.

– Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?

– Para mim é a mulher, certamente.

– Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.

– Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

– Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos uma pausa. Ele continuou:

– Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…

(Emocionei-me e entendi que este homem sabe envolver uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:

– É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

gluteos-de-janete

É para acabar com a quarta-feira. Não são nem oito horas da manhã e a Janete está lá fazendo agachamentos e chutando para cima, para o lado, para baixo – tudo isso com caneleiras de três quilos em cada perna. Uma guerreira essa Janete! Todo esse esforço para se sentir (gostosa) bem com aquela calça legging preta que ela usa na lotação que pega no Largo da Batata às seis da tarde, voltando do trabalho. Janete gosta de malhar os glúteos. Quer tudo durinho, no lugar certo. É por isso que fica do ladinho da professora-deusa em todos os exercícios. Quase uma halterofilista. Janete é novinha, vinte e poucos anos. É oxigenada. Não é nenhuma beldade, alguns diriam que está até um pouco acima do peso. Usa óculos e aparelho. Vive sorrindo por aí, simpaticíssima. De vez em quando, bate um papo com a Vera, que fica lá no fundo da sala de ginástica. A Vera é mais tímida, quietinha, linda. Tem uns 30 anos, madura, bem sucedida. Prefere a discrição do fundão da turma. Nessa manhã, antes dos músculos começarem a tremer e as caneleiras ganharem um quilo a mais, um rapaz aparece na porta da sala de ginástica. Vera, que está perto da porta, acha aquilo estranho. Safado. Só quer ver a gente levantando os glúteos. Aposto! Homens são todos cafajestes! Os olhos dele, que parecem procurar com ansiedade por alguém, pousam sob o sorriso metálico de Janete. Ele sorri. Ela se empina como um pavão. Tudo na sala brilha. BUM-bum-BUM-bum-BUM-bum-BUM. FOGOS DE ARTIFÍCIO. Copacabana. 31 de dezembro. Meia noite. Luzes. Meia noite e um. Fogo. Meia noite e dois. Muito fogo. FOGO. Fogo, fogo, fogo. 

“Você veio?”, diz Janete, em tom sensual, sem se dar conta da obviedade da pergunta.

“Eu vim!”, responde o rapaz, que não está nem aí para o óbvio. Os homens nunca estão.

Antes que Vera perceba, Janete e o rapaz começam a se pegar loucamente na frente do bebedouro – atrapalhando a Cida, 75 anos, que só queria tomar um gole d’água antes da aula de RPG. Vera fica chocada. E a Janete nem é bonita, pensou. Nem é bonita! Puxa. Não são nem oito horas da manhã. De onde vem esse fogo todo? Como é que ela beija desse jeito de aparelho? Puxa. Que pouca vergonha. Coitada da Cida, nem consegue chegar ao bebedouro. Vocês não se preocupam com a terceira idade, não? Get a room. God. Vocês dois não têm noções de privacidade? Que absurdo. Que fogo. Que… que… que inveja! QUE INVEJA. Não são nem oito horas da manhã! Que inveja, Janete. Ai, que INVEJA, sua espertinha.

*Dedico a minha amiga Vera Paula, que faz participação especial no conto só porque riu dessa história quando a ouviu pela primeira vez. 

Foto do Leandro Ciuffo. 

%d blogueiros gostam disto: