Os glúteos de Janete

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É para acabar com a quarta-feira. Não são nem oito horas da manhã e a Janete está lá fazendo agachamentos e chutando para cima, para o lado, para baixo – tudo isso com caneleiras de três quilos em cada perna. Uma guerreira essa Janete! Todo esse esforço para se sentir (gostosa) bem com aquela calça legging preta que ela usa na lotação que pega no Largo da Batata às seis da tarde, voltando do trabalho. Janete gosta de malhar os glúteos. Quer tudo durinho, no lugar certo. É por isso que fica do ladinho da professora-deusa em todos os exercícios. Quase uma halterofilista. Janete é novinha, vinte e poucos anos. É oxigenada. Não é nenhuma beldade, alguns diriam que está até um pouco acima do peso. Usa óculos e aparelho. Vive sorrindo por aí, simpaticíssima. De vez em quando, bate um papo com a Vera, que fica lá no fundo da sala de ginástica. A Vera é mais tímida, quietinha, linda. Tem uns 30 anos, madura, bem sucedida. Prefere a discrição do fundão da turma. Nessa manhã, antes dos músculos começarem a tremer e as caneleiras ganharem um quilo a mais, um rapaz aparece na porta da sala de ginástica. Vera, que está perto da porta, acha aquilo estranho. Safado. Só quer ver a gente levantando os glúteos. Aposto! Homens são todos cafajestes! Os olhos dele, que parecem procurar com ansiedade por alguém, pousam sob o sorriso metálico de Janete. Ele sorri. Ela se empina como um pavão. Tudo na sala brilha. BUM-bum-BUM-bum-BUM-bum-BUM. FOGOS DE ARTIFÍCIO. Copacabana. 31 de dezembro. Meia noite. Luzes. Meia noite e um. Fogo. Meia noite e dois. Muito fogo. FOGO. Fogo, fogo, fogo. 

“Você veio?”, diz Janete, em tom sensual, sem se dar conta da obviedade da pergunta.

“Eu vim!”, responde o rapaz, que não está nem aí para o óbvio. Os homens nunca estão.

Antes que Vera perceba, Janete e o rapaz começam a se pegar loucamente na frente do bebedouro – atrapalhando a Cida, 75 anos, que só queria tomar um gole d’água antes da aula de RPG. Vera fica chocada. E a Janete nem é bonita, pensou. Nem é bonita! Puxa. Não são nem oito horas da manhã. De onde vem esse fogo todo? Como é que ela beija desse jeito de aparelho? Puxa. Que pouca vergonha. Coitada da Cida, nem consegue chegar ao bebedouro. Vocês não se preocupam com a terceira idade, não? Get a room. God. Vocês dois não têm noções de privacidade? Que absurdo. Que fogo. Que… que… que inveja! QUE INVEJA. Não são nem oito horas da manhã! Que inveja, Janete. Ai, que INVEJA, sua espertinha.

*Dedico a minha amiga Vera Paula, que faz participação especial no conto só porque riu dessa história quando a ouviu pela primeira vez. 

Foto do Leandro Ciuffo. 

3 respostas para “Os glúteos de Janete”

  1. Vannn!!!!
    adorei!! nunca fui na academia, mas me senti lá! ri um monte!! FOGOS DE ARTIFÍCIO!
    Só fiquei com dó da Cida, tadinha. Diz pra ela levar uma garrafinha da próxima vez.
    Bjooo

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