Clarice Lispector entrevista Vinícius de Moraes

[Trecho do livro “Clarice Lispector – Entrevistas“, um dos melhores presentes que eu já ganhei. Esta entrevista é tão linda que merece ser guardada e registrada]

Clarice Lispector entrevista Vinícius de Moraes

– Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?

-Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

– Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.

– O fato de querer me comunicar tanto.

– Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?

– Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.

– Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?

– Para mim é a mulher, certamente.

– Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.

– Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

– Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos uma pausa. Ele continuou:

– Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…

(Emocionei-me e entendi que este homem sabe envolver uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:

– É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

1 comentário
  1. joao disse:

    Tenho as mesmas sensações mas não sei me expressar de forma fabulosa como Vinícius!!
    Ótima entrevista!!

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