Aquele filme do Fellini

Ela não entendia aquela cena do helicóptero. Assistiu milhares de vezes para ver se aquilo fazia algum sentido. Pausava, voltava o filme. O que será que ele quer dizer com isso? Dizem que tudo gira em torno da falta de comunicação. Essa é a temática do Fellini nesse filme. Mastroianni quer o telefone, o barulho do helicóptero é muito alto, ninguém se comunica. Ninguém se escuta. Ninguém se entende. Repetidamente. Ele gostava do Fellini. Ela passou a gostar. Talvez mais do que ele. Gostou tanto que passou a amar aquele final – quando a moça fala e ele não escuta. O barulho das ondas é alto demais. Ninguém se entende. Ah, que filme! É a amarração perfeita, é emocionante, sabe? Mas ele não estava nem aí para o que ela achava. Até se irritava quando ela falava com paixão sobre o Fellini, como se ela tivesse tomando posse de algo que fosse exclusivamente seu. E não era só isso: ela leu todos os livros que ele indicou. De Hegel a Woody Allen. Tudo. Aquilo incomodava. Ele gostava de mocinhas inteligentes, mas não era para tanto. Era intelectualidade demais para o gosto dele. Por que ela não podia se preocupar em ser só bonita, como todas as outras garotas? Eles não duraram muito. E ela começou a sair com um maratonista. Decidiu começar a correr. Em dois meses, conseguiu correr cinco quilômetros. Excelente para uma iniciante, ele disse. Passou a se alimentar melhor, a se vestir com mais elegância. É que a ex dele era modelo. A insegurança a deixou linda, quase uma artista de cinema. Ainda lia nas horas vagas, ainda gostava do Fellini. A única diferença é que agora ela era bonita demais. Tão bonita que o maratonista passou a ter um ciúme descomunal. Ficou louco. Começou a atormentá-la. Ela não agüentava mais. Era preciso dar um basta. Chega. Acabou. Não durou muito também. E ela ficou sozinha tentando entender como nenhum dos dois nunca percebeu que ela só queria ser boa o suficiente. Falha de comunicação. Como em La dolce vita

Hoje, ela vai assistir outro filme do Fellini. Noites de Cabíria. É que ela está se sentindo meio Cabíria (tirando a parte da prostituição, é claro). Tudo o que ela quer é chegar àquela cena final. Porque ela sabe que não existe nada tão poético quanto aquele fim. Nada tão sublime. Porque a vida continua. É tudo o que aquela cena diz: a vida sempre continua…

1 comentário
  1. Fiquei com vontade de assisitir Noites de Cabíria… E me sentir como Cabíria…(mas eu só quero a parte da prostituição, é claro…). Beijocas

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