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Arquivo mensal: setembro 2013

Jason Bache

Amélia não acreditava em astrologia, nem em lobisomem – mas morria de medo da lua cheia. Mantinha uma folhinha com calendário lunar atrás da porta da cozinha. Só para não ser pega de surpresa. É que lua cheia mexia com Oswaldo. E ela sabia disso. Sempre soube. Os dois se conheceram numa festa junina, dia de Santo Antônio, noite de lua cheia. Oswaldo a pediu em casamento numa sexta-feira de primavera, noite de lua cheia. Casaram-se numa terça de janeiro, noite de lua cheia. Amélia engravidou de Oswaldinho numa quarta, noite de lua cheia. Amélia pegou Oswaldo com Mirtes, a vizinha do 301, numa quinta, noite de lua cheia. Amélia descobriu que Oswaldo estava tendo um caso com a Rita, a gostosona do escritório, numa segunda, noite de lua cheia. A lua cheia era um problema para Oswaldo: atiçava o homem, deixava os hormônios lá em cima. E mudava a vida de Amélia.

Amélia passou a frequentar o boteco do bairro por causa da lua cheia. Isso foi depois que Oswaldo confessou estar saindo com a Val, caixa da quitanda. Os dois se conheceram no bar do Almeida. Quando a Amélia soube, decidiu que o marido nunca mais beberia sem ela. Amélia odiava álcool, não gostava nem de keep cooler. Mas passou a beber uísque puro e cachaça no gargalo para evitar uma tragédia. E dizia para o Oswaldo: “Pare de me trair ou quem vai te trair sou eu. Eu posso fazer o meu próprio pacto com o diabo, Oswaldo, e quando isso acontecer você vai descobrir o quanto o inferno pode ser gelado”.

Amélia, que não tinha a menor vaidade, passou a usar batom vermelho, saia curta, decote, perfume importado. Tudo para chamar a atenção no bar do Almeida. Nem assim Oswaldo conseguiu se controlar. Amélia continuava culpando a lua cheia. O Almeida, dono do bar, gostava da Amélia. Achava que ela era de deixar o queixo caído. Dizia por aí que Amélia é que era mulher de verdade. Para ter a moça sempre perto do seu balcão, Almeida aposentou a jukebox e contratou o Nestor, um violonista vesgo que fazia frila de sanfoneiro no forró do seu Judas duas ruas para cima. Nestor não cantava nada, mas Almeida sabia que a Amélia tinha uma voz de veludo e chamou a moça para subir no palco improvisado toda sexta. E foi numa sexta, de julho, com ela no palco que o Oswaldo conheceu a Kelly, secretária do doutor Santana, o ortopedista da rua do Grito. Era noite de lua cheia.

Kelly ficou tão louca por Oswaldo que decidiu ir até a casa da Amélia no sábado à noite avisar que o homem agora era dela.
– Queridinha, mulheres, como você, o Oswaldo encontra em qualquer esquina. Para ele ficar com você, eu tenho que sair da frente e isso eu não faço por nada. Você não é mulher suficiente para ele.

Oswaldo dispensou Kelly na segunda-feira de manhã. A moça, em choque, foi se consolar nos braços do doutor Santana. Naquela noite, Amélia explicou para o Almeida: “Homem está sempre de olho naquilo que não precisa”.

Os dias passavam na maior tranquilidade até Oswaldo conhecer a Renatinha, personal trainer da dona Lourdes do 402. A moça tinha a bunda dura que nem uma rocha. Não demorou muito para Amélia descobrir. Mas, dessa vez, Oswaldo se surpreendeu. Ao flagrar os dois aos beijos no quarto de empregada, Amélia quebrou tudo: todos os pratos da cozinha, todos os enfeites da sala, toda a coleção de porcelana da sogra, todas as estátuas de pedra sabão que a tia de Oswaldo trouxe de Minas. Amélia quebrou tudo mesmo, puxou Renatinha pelos cabelos e tentou afogá-la na água da privada. Dava descarga ininterruptamente até Oswaldo conseguir frear a esposa e liberar a amante, que saiu correndo como um foguete pela porta da sala. Amélia partiu então para cima de Oswaldo: rasgou a camisa, enfiou as unhas nas costas, estapeou a cara dele trinta vezes, chutou o peito, os braços, as pernas, gritava feito uma louca. Ele recebeu a agressão sem reagir. Merecia. Sabia. Ela correu para o elevador. Ele ficou prostrado no sofá da sala. Amélia desceu para a garagem, enterrou a chave do carro em toda a lateral da pick-up novinha do Oswaldo. Quebrou todos os vidros com um pé de cabra. Furou todos os pneus do carro. Esculpiu com uma faca a palavra TRAIDOR no banco de trás. Voltou feito louca. Mandou Oswaldo pegar as coisas e ir embora: “Infidelidade não dá para perdoar, Oswaldo”. Sem entender nada, Oswaldo foi até a garagem. Viu o estrago. Precisou chamar um táxi. Amélia era sempre tão misericordiosa, uma mulher de verdade. O que é aconteceu dessa vez?

Amélia sentou na mesa da cozinha, encheu o copo de 51 e ligou o rádio. Chorou pela primeira vez em anos. Tocava um samba deprê da Beth Carvalho. Ela saiu na varanda com o copo. Precisava respirar. Olhou para o céu, com as lágrimas arrebentando nas pálpebras. Era noite de lua nova. Imperdoável, Oswaldo. Em noite de lua nova é simplesmente imperdoável.

Foto de Jason Bache.

Foto de Cristina Valencia

Desligou o computador dez minutos antes do fim do expediente e se sentou do lado da mesa dele com a bolsa no ombro e o crachá na mão. Começou o papo falando sobre o tempo e introduziu o tema da noite com “vamos supor que”; “e se”; “caso hipotético”. Queria uma opinião masculina sobre um cara que flertava vez ou outra e sumia na sequência (o que ele quer comigo no fim das contas?). Não deu nomes ou lugares. Ele nem ligou: homens não se importam com detalhes. Ouviu pacientemente e concluiu em forma de metáfora (como costuma fazer).

– Eu acho o seguinte: às vezes, você passa em frente a um restaurante e acha legal, bonito. O lugar tem uma iluminação bacana, umas mesas na calçada… você pensa: “puxa, que restaurante! Quero vir conhecer”. Passa uns dois dias, você decide tentar. Só que dá tudo errado: chove, você fica preso no trabalho, não rola. Você não vai. Mas você ainda quer conhecer o restaurante. Então, dá uma pesquisada na internet, vê que precisa fazer reserva, acha que vai sair caro demais para o seu bolso e pensa: “vou lá no dia do pagamento”. Só que você está cheio de dívidas, decide deixar para o mês que vem. O tempo passa, você acaba esquecendo o restaurante. Você ainda tem vontade de ir lá, mas está ocupado com outras coisas, existem outros restaurantes mais acessíveis e tal… Só que fica aquela curiosidade.

– Curiosidade… é isso!

– Aí um dia, sem querer, você passa de novo em frente e bate aquele sentimento: “por que é que eu nunca vim aqui? Parece ser tão legal”. E aí você fica motivado a tentar de novo, marcar, fazer reserva. Porque você tem aquela curiosidade, sabe? Mas se você nunca passar na frente de novo…

– Você esquece o restaurante.

– Isso. O problema é que se algum dia alguém mencionar esse restaurante, a única coisa que você vai lembrar é que você nunca chegou a entrar.

– Mesmo sentindo toda aquela curiosidade…

– Curiosidade é um negócio que não passa nunca. Só vai passar se…

– É, eu sei bem…

– No amor, é mais ou menos a mesma coisa.

Suspirou aliviada, pegou a bolsa, levantou.

– Bom… preciso ir. Você é um gênio. Obrigada.

Foto de Cris Valencia.

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