A teoria do restaurante

Foto de Cristina Valencia

Desligou o computador dez minutos antes do fim do expediente e se sentou do lado da mesa dele com a bolsa no ombro e o crachá na mão. Começou o papo falando sobre o tempo e introduziu o tema da noite com “vamos supor que”; “e se”; “caso hipotético”. Queria uma opinião masculina sobre um cara que flertava vez ou outra e sumia na sequência (o que ele quer comigo no fim das contas?). Não deu nomes ou lugares. Ele nem ligou: homens não se importam com detalhes. Ouviu pacientemente e concluiu em forma de metáfora (como costuma fazer).

– Eu acho o seguinte: às vezes, você passa em frente a um restaurante e acha legal, bonito. O lugar tem uma iluminação bacana, umas mesas na calçada… você pensa: “puxa, que restaurante! Quero vir conhecer”. Passa uns dois dias, você decide tentar. Só que dá tudo errado: chove, você fica preso no trabalho, não rola. Você não vai. Mas você ainda quer conhecer o restaurante. Então, dá uma pesquisada na internet, vê que precisa fazer reserva, acha que vai sair caro demais para o seu bolso e pensa: “vou lá no dia do pagamento”. Só que você está cheio de dívidas, decide deixar para o mês que vem. O tempo passa, você acaba esquecendo o restaurante. Você ainda tem vontade de ir lá, mas está ocupado com outras coisas, existem outros restaurantes mais acessíveis e tal… Só que fica aquela curiosidade.

– Curiosidade… é isso!

– Aí um dia, sem querer, você passa de novo em frente e bate aquele sentimento: “por que é que eu nunca vim aqui? Parece ser tão legal”. E aí você fica motivado a tentar de novo, marcar, fazer reserva. Porque você tem aquela curiosidade, sabe? Mas se você nunca passar na frente de novo…

– Você esquece o restaurante.

– Isso. O problema é que se algum dia alguém mencionar esse restaurante, a única coisa que você vai lembrar é que você nunca chegou a entrar.

– Mesmo sentindo toda aquela curiosidade…

– Curiosidade é um negócio que não passa nunca. Só vai passar se…

– É, eu sei bem…

– No amor, é mais ou menos a mesma coisa.

Suspirou aliviada, pegou a bolsa, levantou.

– Bom… preciso ir. Você é um gênio. Obrigada.

Foto de Cris Valencia.

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