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Arquivo mensal: outubro 2013

IMG_4187Quase novembro e eu nem tirei férias. Não vou tirar, não em 2013. Esse ano voou. “Espero que 2014 seja o ano das férias de 30 dias”, prometo para mim mesma. Faço a mesma promessa há quatro anos. “2014 podia ser ano de prosperidade de novo, né?”, sonho em voz baixa no trabalho. Quem sabe assim a gente sai dessa tensão corporativa. Uma amiga diz que, em época de crise, demissão é a melhor coisa que pode acontecer, que assim a gente se obriga a se reinventar. Concordo. Outra amiga diz que nessas horas, a gente precisa se apegar ao que está fora daqui. Concordo também. Tiro o meu domingo para ir visitar meu avô. Quando eu chego, eu não sei se ele sabe quem eu sou. Minha mãe me disse que ele não está reconhecendo todo mundo mais. Não é Alzheimer. São as complicações da insuficiência cardíaca e do maldito Parkinson. As pessoas não têm noção do quão triste é essa doença. Parkinson não é só tremedeira, é muito pior. Ele te mata todo dia um pouquinho, te destrói silenciosamente, mas nunca é o autor do golpe final. Meu avô foi diagnosticado com Parkinson há mais de doze anos e vem sendo tratado com os melhores médicos, os melhores remédios e o melhor trabalho de fisioterapia. Não adianta: essa maldição não tem cura. Por causa do coração, ele já foi internado mais de dez vezes nos últimos seis anos. Nós decoramos o caminho até a UTI do Hospital do Coração, sabemos na ponta da língua quais são os horários de visita. A gente está cansado de saber como tudo funciona. Meu avô tem um marca passo, mas ainda assim o coração não aguenta. O Parkinson só deixa tudo pior, e ainda tem a diabetes descontrolada depois da última internação. Meus tios alugaram uma cama de hospital para colocar no quarto dele. Para garantir que ele não vai cair à noite. A cama chega na segunda-feira. Minha avó está uma pilha de nervos, não há rivotril que acalme. Meus tios e meu pai passam o tempo livre lá. Toda vez que eu apareço eu encontro com um dos meus primos. A casa é sempre cheia. Meu avô tem tudo, mas sofremos juntos, ficamos irritados, estressados, tristes. Empurramos a cadeira de rodas, ligamos a TV no futebol. Será que o vô ainda sabe que o São Paulo está jogando? Meu pai e meu tio discutem na sala com meu primo. Brigam por causa do São Paulo e do Corinthians. Minha avó lamenta na cozinha.

– Ando muito cansada, Vani. Envelhecer não é fácil.

– Eu sei, Vó.

– Seu outro avô saiu do hospital também, né?

– Saiu.

– Ele está melhor?

– Está indo. Quem é que está bem hoje em dia, Vó?

– E, no trabalho, está tudo bem?

– Já te contei que estou fazendo aula de dança, Vó?, desconverso.

Eu não sou de beber, mas nunca tomei tanta cerveja quanto nesse ano. Tomar cerveja e reclamar que o amor não vem me faz um bem danado. Só quero falar disso, só quero escrever sobre isso. Enquanto eu reclamo do amor, eu não fico pensando nesse maldito Parkinson. Não fico pensando se algum de nós herdou essa praga, se a gente vai ter esse mesmo destino. Romance é só distração. Amor de verdade é esse desespero na beira de uma cama hospitalar. É isso que a gente talvez nunca vá achar. É por isso que a gente é exigente.

Minha tia me narra as dificuldades daquela semana, as atrapalhadas, os erros, as confusões. Estão todos esgotados.

– Estamos todos doentes, Vanessa. Todos!

– Eu sei, tia.

Pego as minhas coisas, dou um beijo no meu avô. “Volto semana que vem, vô”. Ele não diz nada. Não sei se ele se lembra de mim. Será que vai ser sempre assim agora?

– Você trouxe um casaco, Vani? Esfriou agora.

– Não trouxe, mas está tudo bem, Vó. São Paulo tem um clima maluco, estou acostumada.

– Não vejo a hora do verão chegar de vez.

– Estamos todos precisando de um pouco de sol, né, Vó?

Entro no carro, rezo para novembro chegar logo. Para a gente ter um descanso, uns dias de paz, de sol. Quero culpar outubro por tudo isso. E não quero ter esperança porque ela é traiçoeira. Precisamos de fé. Só isso. Ligo o rádio… eu conheço essa música. É Bruce Springsteen. Obrigada.

*Baseado em um diálogo real, é quase 100% verdade. QUASE.

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Segunda,  café de fim de tarde, 17h32.

– Li aquele texto do seu blog.
– O “Garotas, como eu…”? Sério? Adoro quando você lê! O que achou?
– Te achei muito melancólica, D’Amaro.
– É sobre amor não concretizado. Tem coisa mais melancólica do que isso?
– E te achei um pouco machista para alguém que se diz tão feminista. Por que é que vocês, mulheres, não podem tomar a iniciativa?
– Não existe a “garota que toma a iniciativa”. Existem caras com quem se consegue tomar a iniciativa, e caras com quem é impossível. Tem que analisar caso a caso.
– Mas é a mesma coisa para nós, homens!
– Não sei porque você tá defendendo esses caras! Você não é um deles!
– Mas já fui.
– Duvido.
– Tô falando. É difícil para a gente também.
– Você não tem o perfil. Você me contou! Foi você quem correu atrás da sua namorada. Você fez TUDO!
– Claro que foi! Se eu não fizesse isso, alguém faria antes de mim!
– É justamente aonde eu quero chegar. Se esses caras realmente gostassem dessas garotas, eles não hesitariam. Homem quando quer uma coisa não hesita. Homem quando quer uma coisa torna aquilo prioridade.
– Mas talvez o cara…
– Sem mas… Você sabe melhor do que eu.
– Enfim… de qualquer jeito, eu acho que você precisa conhecer outro cara, Van.
– Também acho. Mas tô cansada.
– Do quê?
– De sorrir, ser simpática, mexer no cabelo, jogar charme. Ser interessante é um porre.
– Você é louca.
– É sério, não aguento mais! Queria poder contar todos os meus defeitos, todos os meus problemas e falar: “Olha só, é isso. Agora, você sabe. Se quiser, vai ter que encarar assim mesmo. De vez em quando, vai ser legal”. Podia ser assim, não podia?
– Você é louca.
– É que eu só posso verbalizar essas coisas com você, que me entende e é meu amigo.
– Não sei do que você tá falando. Nós somos meros colegas de trabalho, D’Amaro.
– Meros colegas de trabalho? De novo com essa história?
– Já mandei você esquecer esse negócio de amizade.
Homem não se compromete com nada mesmo, né? Nem com uma simples amizade. Vocês são ridículos.
– Não generaliza!
– Uns ridículos! Uns COVARDES!
– Me passa um guardanapo, vai.

Foto de ultrakmi.

FIM.

A unha do dedo indicador já estava no talo. Estava quase começando a roer o dedão quando o Adilson finalmente falou.
– Acho que vai ter que trocar a porta, dona Laura.
– Trocar a porta, Adilson? Não brinca!
– Verdade verdadeira, dona Laura. Bateu bem aqui na ventoinha esquerda da valeta da lataria inferior. Funilaria não resolve esse trem, dona Laura. Vai ter que comprar uma porta nova. E sai caro, viu. Puxa, vida, como é caro.
– Adilson, não dá para dar um jeito? Faz um martelinho aí, sei lá… Eu troco a porta mês que vem quando tiver mais grana. Não tem como?
– Dona Laura, já expliquei pra senhora no mês passado quando a senhora bateu o para-choque. Aqui nessa oficina eu não faço serviço meia-boca. Esse estabelecimento preza pela qualidade, dona Laura. Serviço porco não é com o Adilson. Aí a senhora sai por aí com o carro todo capenga e esses fofoqueiros do bairro vêm dizer que eu tô de corpo mole. Não tem jeito, dona Laura. Vai ter que trocar a porta!
– Ok, Adilson, quanto tempo o carro fica aqui?
– Faço em uma semana, dona Laura.
– Quanto sai?
– Mil e setecentos reais. Mas como a senhora é cliente antiga, tá sempre por aqui, bate o carro toda hora, eu faço um desconto. Fica mil e duzentos, dona Laura. Em três vezes. Aceita visa e cheque.

Laura não discutiu. Passou a chave para o Adilson e voltou para casa a pé. Era a terceira batida em dois meses. Tinha visto e falado com o Adilson umas oito vezes nesse período. Sabia tudo da vida do homem. Conseguia soletrar o nome dos seus sete filhos por ordem de idade: Cleidiley, Nilmerson, Juacildo, Alquindar, Ordislaine, Kellen e Maryana. Tinha o endereço da sogra, a pernambucana, Maria do Socorro, que jurava de pé junto que era tão antiga que tinha encontrado o Virgulino, o próprio, o único, o Lampião. Ouviu essa história umas dez vezes só na última semana. Provou o doce de leite da Duda, mulher do Adilson, umas três vezes no último mês. Divino. Engordou três quilos só de desejo.

Adilson também sabia tudo da Laura. Conhecia o coronel Torres, seu avô, a dona Nicéia, sua avó, e o tenente Claudio e a Valquíria, seus pais. Funileiro de bairro. De confiança. Podia relatar todas as batidas e raladas de cada morador da rua dos Sorocabanos a Gentil de Moura. Uma loucura esse Adilson! Quanta memória! Quanta informação! E Adilson sabia o porquê de tanta barbeiragem no trânsito nos últimos tempos. Laura não era assim sempre. O problema da moça era paixão. Quando encasquetava com um rapaz, não existia sinal vermelho, placa de PARE, faixa de pedestre, poste ou muro que a segurasse. Era acidente na certa. Um atrás do outro. Moça louca e desvairava, pensava. Que coisa doida esse negócio de paixão. Deus nos livre! “Essa história de hormônio pode levar a morte, dona Laura”, avisou quando a moça enfiou o carro embaixo de um ônibus numa segunda de manhã.

O algoz da vez atendia pelo nome de Danilo. Era o novo padeiro da “Quentinho e gostosinho”, a padaria mais chique do bairro. Danilo era bem o tipo de Laura. Forte, mas não muito forte. Alto, mas não muito alto. Bonito, mas não muito bonito. Inteligente, mas não muito inteligente. Jovem, mas não muito jovem. Tudo na medida. E tinha um belo par de olhos azuis generosos, uma perdição. E fazia pão. E sorria. E era gentil, cavalheiro, lindo. Laura nunca comeu tanto pão e com tanto gosto. Só de pensar que Danilo amassava aquelas broas com as próprias mãos… Enlouquecia. Quando ela imaginava ele gargalhando com aquele chapéu de confeiteiro e farinha por toda a parte naquela cozinha industrial, o mundo inteiro desaparecia. E batia o carro. Trocava o para-choque, a porta do motorista, o vidro do passageiro. Gastava um dinheiro que fazia falta. Sua avó que tinha razão: paixão acaba com a direção, o foco, a lucidez, a conta bancária. Um sentimento do demônio, como dizia a tia Mirtes, solteirona, inteiraça, lúcida, 90 anos. Era preciso dar um basta. Chega. Ia se declarar.

Planejou o discurso numa madrugada de quarta. Andava de um lado para o outro, articulando tarde da noite. Bateu o dedinho três vezes na quina mesa, arranhou o braço no abajur, tropeçou no vaso de areca da mãe, escorregou no tapete. De tanto pensar no Danilo. Ficava boba, distraída, desastrada. Paixão é um negócio dos infernos. Não dormiu e, às cinco e meia da manhã, saiu de casa para pegar o Danilo chegando na padoca, digo, na casa de pães. Entrou que nem um foguete, cumprimentou o seu Gomes e foi até a cozinha sem pedir licença. Quando viu Danilo, tudo esmaeceu, mas ela não se deixou abater. Antes que o rapaz dissesse “bom dia”, desembestou a falar.

– Danilo, eu sou louca por você. E nem é porque você é bonito, não. Até porque você nem é tão bonito assim. E nem é porque você é padeiro, porque padeiro nem é a profissão mais legal do mundo também. Sou louca por você por causa desse olhos azuis, Danilo. Me perco nesses olhos, cara, eles são lindos! Danilo, eu quero te beijar na chuva, no meio da rua, com o sinal aberto. Danilo, eu bati o meu carro três vezes por sua causa. Quando eu penso na sua cara, Danilo, eu não vejo a cor do semáforo, a preferencial, a mão da rua. Danilo, eu preciso parar de bater o carro. Eu tô gastando muito dinheiro na oficina do Adilson e ele nem é um funileiro tão bom assim. Danilo, eu nunca comi tanto pão na minha vida! E eu nem gosto de pão francês, sou bem mais pão de forma! Danilo, quando você sorri, eu me derreto toda. Eu me sinto na praia de Copacabana em 31 de dezembro. É fogo de artifício saindo pela boca, Danilo. Eu adoro falar o seu nome, Danilo. É tipo poesia para mim. Eu sei que tem umas vinte e cinco mil garotas te querendo, e elas são todas lindas. Mas eu acho que você deveria ficar comigo, Danilo. Eu gosto tanto de você. Eu posso te fazer tão feliz. A gente pode ir no cinema ver um desses filmes de ET que você gosta tanto e comer pipoca e rir e eu posso encostar a minha cabeça no seu ombro e você pode pegar na minha mão e a gente…

Danilo a interrompeu.

– Laura, você é incrível! Não existe garota como você! Cara, você é muito corajosa e linda. E eu te adoro. Mas ontem eu pedi Estefany, filha da dona Lurdinha, em namoro. Não tô mais solteiro, Laura. Eu tô apaixonado por ela. Há uns meses já. Me desculpa… Eu te adoro, Laura. Você vai fazer um cara muito feliz ainda. E vocês vão poder se beijar na chuva no meio da rua com o sinal aberto. E nós dois podemos ser amigos!

Laura, branca e em choque, respirou fundo e disse.

– A Estefany? Sério? Gente… Nós dois? Amigos? Danilo, amizade? Amizade é uma merda!

E correu para a porta. Mas foi freada por uma mesa lateral onde descansava uma montanha de sonhos quentinhos — que se espalharam por todo o chão da cozinha enquanto o restante da equipe chegava como uma manada de elefantes para mais um dia de expediente. O auxiliar tentou alcançá-los antes de serem pisoteados por todos. Em vão. Os sonhos não tiveram nem chance. O chão ficou todo melecado de creme branco, credo. Um desperdício. Uma pena. Uma tristeza. Não era dia de sonho. Definitivamente.

Laura passou a tarde em branco, em alfa, em um mundo paralelo. Foi para um bar com as amigas tentar esquecer tudo. Todo o coração partido. Toda a decepção. Encheu a cara de vinho com raiva da Estefany, aquela patricinha. Enfiou o carro num poste, voltando para casa.

***

– Dona Laura, dessa vez, a senhora teve sorte. Nem precisa trocar nada. Dá para resolver com funilaria.
– Graças a Deus, Adilson.
– É paixão ainda, dona Laura?
– Não, Adilson, foi vinho. Dessa vez, foi vinho.
– Vinho é a melhor coisa do mundo, dona Laura.
– Você acha? Eu achava que paixão era bem melhor.
– Que nada! Vinho causa bem menos estrago. Bem menos!

Fim.

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