As barbeiragens de Laura

A unha do dedo indicador já estava no talo. Estava quase começando a roer o dedão quando o Adilson finalmente falou.
– Acho que vai ter que trocar a porta, dona Laura.
– Trocar a porta, Adilson? Não brinca!
– Verdade verdadeira, dona Laura. Bateu bem aqui na ventoinha esquerda da valeta da lataria inferior. Funilaria não resolve esse trem, dona Laura. Vai ter que comprar uma porta nova. E sai caro, viu. Puxa, vida, como é caro.
– Adilson, não dá para dar um jeito? Faz um martelinho aí, sei lá… Eu troco a porta mês que vem quando tiver mais grana. Não tem como?
– Dona Laura, já expliquei pra senhora no mês passado quando a senhora bateu o para-choque. Aqui nessa oficina eu não faço serviço meia-boca. Esse estabelecimento preza pela qualidade, dona Laura. Serviço porco não é com o Adilson. Aí a senhora sai por aí com o carro todo capenga e esses fofoqueiros do bairro vêm dizer que eu tô de corpo mole. Não tem jeito, dona Laura. Vai ter que trocar a porta!
– Ok, Adilson, quanto tempo o carro fica aqui?
– Faço em uma semana, dona Laura.
– Quanto sai?
– Mil e setecentos reais. Mas como a senhora é cliente antiga, tá sempre por aqui, bate o carro toda hora, eu faço um desconto. Fica mil e duzentos, dona Laura. Em três vezes. Aceita visa e cheque.

Laura não discutiu. Passou a chave para o Adilson e voltou para casa a pé. Era a terceira batida em dois meses. Tinha visto e falado com o Adilson umas oito vezes nesse período. Sabia tudo da vida do homem. Conseguia soletrar o nome dos seus sete filhos por ordem de idade: Cleidiley, Nilmerson, Juacildo, Alquindar, Ordislaine, Kellen e Maryana. Tinha o endereço da sogra, a pernambucana, Maria do Socorro, que jurava de pé junto que era tão antiga que tinha encontrado o Virgulino, o próprio, o único, o Lampião. Ouviu essa história umas dez vezes só na última semana. Provou o doce de leite da Duda, mulher do Adilson, umas três vezes no último mês. Divino. Engordou três quilos só de desejo.

Adilson também sabia tudo da Laura. Conhecia o coronel Torres, seu avô, a dona Nicéia, sua avó, e o tenente Claudio e a Valquíria, seus pais. Funileiro de bairro. De confiança. Podia relatar todas as batidas e raladas de cada morador da rua dos Sorocabanos a Gentil de Moura. Uma loucura esse Adilson! Quanta memória! Quanta informação! E Adilson sabia o porquê de tanta barbeiragem no trânsito nos últimos tempos. Laura não era assim sempre. O problema da moça era paixão. Quando encasquetava com um rapaz, não existia sinal vermelho, placa de PARE, faixa de pedestre, poste ou muro que a segurasse. Era acidente na certa. Um atrás do outro. Moça louca e desvairava, pensava. Que coisa doida esse negócio de paixão. Deus nos livre! “Essa história de hormônio pode levar a morte, dona Laura”, avisou quando a moça enfiou o carro embaixo de um ônibus numa segunda de manhã.

O algoz da vez atendia pelo nome de Danilo. Era o novo padeiro da “Quentinho e gostosinho”, a padaria mais chique do bairro. Danilo era bem o tipo de Laura. Forte, mas não muito forte. Alto, mas não muito alto. Bonito, mas não muito bonito. Inteligente, mas não muito inteligente. Jovem, mas não muito jovem. Tudo na medida. E tinha um belo par de olhos azuis generosos, uma perdição. E fazia pão. E sorria. E era gentil, cavalheiro, lindo. Laura nunca comeu tanto pão e com tanto gosto. Só de pensar que Danilo amassava aquelas broas com as próprias mãos… Enlouquecia. Quando ela imaginava ele gargalhando com aquele chapéu de confeiteiro e farinha por toda a parte naquela cozinha industrial, o mundo inteiro desaparecia. E batia o carro. Trocava o para-choque, a porta do motorista, o vidro do passageiro. Gastava um dinheiro que fazia falta. Sua avó que tinha razão: paixão acaba com a direção, o foco, a lucidez, a conta bancária. Um sentimento do demônio, como dizia a tia Mirtes, solteirona, inteiraça, lúcida, 90 anos. Era preciso dar um basta. Chega. Ia se declarar.

Planejou o discurso numa madrugada de quarta. Andava de um lado para o outro, articulando tarde da noite. Bateu o dedinho três vezes na quina mesa, arranhou o braço no abajur, tropeçou no vaso de areca da mãe, escorregou no tapete. De tanto pensar no Danilo. Ficava boba, distraída, desastrada. Paixão é um negócio dos infernos. Não dormiu e, às cinco e meia da manhã, saiu de casa para pegar o Danilo chegando na padoca, digo, na casa de pães. Entrou que nem um foguete, cumprimentou o seu Gomes e foi até a cozinha sem pedir licença. Quando viu Danilo, tudo esmaeceu, mas ela não se deixou abater. Antes que o rapaz dissesse “bom dia”, desembestou a falar.

– Danilo, eu sou louca por você. E nem é porque você é bonito, não. Até porque você nem é tão bonito assim. E nem é porque você é padeiro, porque padeiro nem é a profissão mais legal do mundo também. Sou louca por você por causa desse olhos azuis, Danilo. Me perco nesses olhos, cara, eles são lindos! Danilo, eu quero te beijar na chuva, no meio da rua, com o sinal aberto. Danilo, eu bati o meu carro três vezes por sua causa. Quando eu penso na sua cara, Danilo, eu não vejo a cor do semáforo, a preferencial, a mão da rua. Danilo, eu preciso parar de bater o carro. Eu tô gastando muito dinheiro na oficina do Adilson e ele nem é um funileiro tão bom assim. Danilo, eu nunca comi tanto pão na minha vida! E eu nem gosto de pão francês, sou bem mais pão de forma! Danilo, quando você sorri, eu me derreto toda. Eu me sinto na praia de Copacabana em 31 de dezembro. É fogo de artifício saindo pela boca, Danilo. Eu adoro falar o seu nome, Danilo. É tipo poesia para mim. Eu sei que tem umas vinte e cinco mil garotas te querendo, e elas são todas lindas. Mas eu acho que você deveria ficar comigo, Danilo. Eu gosto tanto de você. Eu posso te fazer tão feliz. A gente pode ir no cinema ver um desses filmes de ET que você gosta tanto e comer pipoca e rir e eu posso encostar a minha cabeça no seu ombro e você pode pegar na minha mão e a gente…

Danilo a interrompeu.

– Laura, você é incrível! Não existe garota como você! Cara, você é muito corajosa e linda. E eu te adoro. Mas ontem eu pedi Estefany, filha da dona Lurdinha, em namoro. Não tô mais solteiro, Laura. Eu tô apaixonado por ela. Há uns meses já. Me desculpa… Eu te adoro, Laura. Você vai fazer um cara muito feliz ainda. E vocês vão poder se beijar na chuva no meio da rua com o sinal aberto. E nós dois podemos ser amigos!

Laura, branca e em choque, respirou fundo e disse.

– A Estefany? Sério? Gente… Nós dois? Amigos? Danilo, amizade? Amizade é uma merda!

E correu para a porta. Mas foi freada por uma mesa lateral onde descansava uma montanha de sonhos quentinhos — que se espalharam por todo o chão da cozinha enquanto o restante da equipe chegava como uma manada de elefantes para mais um dia de expediente. O auxiliar tentou alcançá-los antes de serem pisoteados por todos. Em vão. Os sonhos não tiveram nem chance. O chão ficou todo melecado de creme branco, credo. Um desperdício. Uma pena. Uma tristeza. Não era dia de sonho. Definitivamente.

Laura passou a tarde em branco, em alfa, em um mundo paralelo. Foi para um bar com as amigas tentar esquecer tudo. Todo o coração partido. Toda a decepção. Encheu a cara de vinho com raiva da Estefany, aquela patricinha. Enfiou o carro num poste, voltando para casa.

***

– Dona Laura, dessa vez, a senhora teve sorte. Nem precisa trocar nada. Dá para resolver com funilaria.
– Graças a Deus, Adilson.
– É paixão ainda, dona Laura?
– Não, Adilson, foi vinho. Dessa vez, foi vinho.
– Vinho é a melhor coisa do mundo, dona Laura.
– Você acha? Eu achava que paixão era bem melhor.
– Que nada! Vinho causa bem menos estrago. Bem menos!

Fim.

1 comentário
  1. Van, que ótima crônica! Adorei a cena dos sonhos espatifados! E a Laura repetindo Danilo o tempo todo….. Ah, e eu prefiro vinho com paixão. Ou cerveja com amor? Hmmm… Acho que cerveja com amor, que é mais duradouro e dá menos dor de cabeça 😉

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