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Arquivo mensal: dezembro 2013

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Evito beber porque quando eu bebo, eu fico desinibida – e quando eu fico desinibida, eu não subo em cima da mesa, danço loucamente ou tiro a roupa. Antes fosse. Eu, desinibida, não sou divertida. Eu, bêbada, filosofo, digo coisas que você não quer ouvir.

–       A gente tá aqui rindo, comendo, bebendo, dançando… Mas você sabe que, no fundo, somos todos muito solitários, né?

Sim, essa sou eu, bêbada.

Quando eu bebo, eu fico pessimista, reflexiva, chata. Eu acho que as pessoas não se comunicam direito, não leem mais. Eu digo que a literatura está desvalorizada e que ninguém mais assiste os filmes antigos… eu fico um porre!

–       “Cantando na chuva”, alguém viu? Não, ninguém viu, mas todo mundo acha que sabe do que se trata. É um inferno. As pessoas pensam que “Cantando na chuva” é uma história de amor quando, na verdade, essa é uma puta história de superação. Você não sabia disso, não é? Ninguém sabe. É um absurdo. Um filme tão acessível…

Depois de falar sobre o bigode do Clark Gable, do charme do Bogart e do fato de Cary Grant ser realmente o homem da minha vida (sempre digo que o Cary Grant é o homem da minha vida). Eu decido falar sobre a Itália. Sim, caríssimos, eu sempre falo sobre a Itália. Falo sobre Veneza, os seus canais, a sua angústia, a sua melancolia…

–       As agências de turismo falam para você que Veneza é um cidade romântica. É tudo uma grande mentira! Não existe romance em Veneza! É furada. Veneza é uma cidade triste, melancólica, angustiante. Mas as pessoas não entendem isso. As pessoas não conseguem apreciar a beleza de uma cidade que afunda a cada dia que passa, de uma cidade que não tem esperança, não tem futuro, não tem razão de ser nos dias de hoje. Veneza é passado, morte. Ela está morrendo e essa é a grande angústia que paira no ar. Mas as pessoas são insensíveis. Você tem que ir para Veneza, você precisa ver isso de perto… Você precisa sentir a poesia que é essa melancolia. É  uma beleza triste. Uma coisa de maluco, juro. Promete que vai para Veneza?

Como se não bastasse, eu tiro lições dos filmes do Fellini. Tem como piorar?

–       Às vezes, eu acho que a vida é tipo aquela introdução de La dolce vita. Você assistiu? Tem um barulho alto de helicóptero que não permite que a gente converse, que se entenda. A gente se vê, mas não consegue se comunicar. Nenhum de nós sabe o que se passa uns com os outros. Somos todos muito solitários. No fim do dia é você e esse silêncio dentro do peito, sabe?

Eu sempre volto na solidão (às vezes, cito Woody Allen: “não foi ele quem disse que a realidade é lugar muito triste de se estar?”). E, como é habitual, um pouquinho de álcool já me leva ao meu assunto predileto: a crise do jornalismo.

–       A gente queria mudar o mundo, a gente queria dar informação relevante para o leitor, falar sobre aquilo que as pessoas não sabiam. E o que a gente fez com o jornalismo? O que a gente fez? Ninguém mais lê hoje em dia. Ninguém se importa com o que a gente quer contar. As pessoas querem ver foto e ler fofoca. Só conteúdo vazio dá audiência e nós somos como vampiros atrás da audiência. Vampiros pobres, porque nem dinheiro nós temos para fazer uma reportagem decente. Não dá para sair, fazer matéria e comer mais que um cachorro quente. A verba não dá. Somos vampiros pobres, sanguessugas famintos… É isso: SANGUESSUGAS FAMINTOS. E eu gostava tanto da ideia de ser jornalista…

É por isso, amigos, que eu peço encarecidamente: não me chamem para tomar uma cerveja, um chope, um vinho, uma cachaça… Eu sou péssima, minha gente. Vocês não precisam passar por isso. Vocês não querem me ver bêbada. A nossa amizade pode não sobreviver*. Por favor, não insistam. É pelo bem de vocês, eu juro. Grata.

PS: Bêbada, eu falo de amizade também. (“Sejamos sinceros: quem é que tem muitos amigos? Somos nós três aqui e só, gente”). Deprê, deprê, deprê.

* Foto de Lindsey Gira.

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