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Arquivo mensal: janeiro 2014

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Quando entrou chorando no elevador e viu dona Lurdinha, Nina tratou de colocar os óculos de sol de volta no rosto. Achou que as lentes talvez a protegessem da bisbilhotice da velha mais ranzinza do condomínio. Dona Lurdinha virou os olhos. Nina abaixou a cabeça.
– Sua mãe, como está? — perguntou dona Lurdinha numa tentativa de extrair de Nina um mínimo de conversa que desse margem a menor das fofoquinhas para alegrar o tédio do seu dia a dia de aposentada pelo INSS.
– Bem, dona Lurdinha — respondeu seca.
– Você é que não está bem, né, menina? — insistiu.
– Imagina, dona Lurdinha — ironizou Nina, que já queria mandar a vizinha enxerida ver se estava em Itaquaquecetuba.
– Ainda está solteira, Nina? — alfinetou.

Nina não respondeu. Velha intrometida dos infernos, vai cuidar da sua hérnia de disco e me deixa em paz! Odiou dona Lurdinha mais do que o costume, quis que ela quebrasse a bacia e não pudesse sair de casa por seis meses. Mas Nina era católica e imediatamente se sentiu culpada pelo mau pensamento. Como iria conviver com a consciência se a insuportável realmente quebrasse a bacia? Deus me livre! Melhor não! Católicos sempre se culpando por tudo, pensou. Resolveu ser uma boa cristã e desejou que a velha ficasse boa da coluna e parasse de pegar o elevador para subir um único andar do térreo.

– Nina, deixa eu te dar um conselho antes de descer — disse assim que a porta do elevador abriu no primeiro andar.

Maldita! Nina a fuzilou por baixo dos óculos de sol. Se tinha uma coisa que odiava na vida, eram esses conselhos gratuitos e infelizes de gente que não consegue se colocar no lugar do outro. Quis morrer. Quis voar no pescoço da dona Lurdinha.

– Nina, homens são como calças. É muito difícil você encontrar uma que sirva direitinho. Na maioria das vezes, você vai ter que mandar fazer a barra. No mínimo! O ruim é que inevitavelmente antes de fazer a barra, você vai precisar passar no caixa e pagar por uma calça que ainda não está com um caimento perfeito. É tudo um jogo de azar. É basicamente isso, minha filha.

Desceu.
Nina ficou refletindo, chocada.

Homens são como calças! É quase impossível achar uma que não precise de ajuste. É pura sorte quando acontece! Puxa, dona Lurdinha, homens são como calças! Sozinha no elevador, colocou os óculos de sol na cabeça e ficou pensando em quantas calças já tinha mandado fazer a barra, sem sucesso. Parou de chorar e, por um segundo, quis abraçar a dona Lurdinha. Quase podia gostar dela depois dessa. Quase.

Assim que o elevador chegou ao décimo segundo andar, Nina decidiu passar um café. Ficou pensando em amores, por pura distração. Era melhor do que ir direto atualizar o seu currículo. Era melhor do que se preocupar em como iria pagar as contas no fim do mês…

Nina tinha acabado de perder o emprego.

Foto do Francisco Osório.

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