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Arquivo mensal: fevereiro 2014

Para o meu querido avô Getúlio, o dono do olhar mais generoso do mundo.

Quando o relógio deu oito horas em ponto, eu comecei a chorar copiosamente – sem nem saber que naquele exato minuto, a sua barca partia. Nos reunimos em torno da sua cama, como tantas vezes fizemos ao redor da sua poltrona. E choramos ao invés de rir, como era de costume. O choro nos calou, como nunca fizemos perto de você – apesar de tantos pedidos para a gente falar mais baixo. Aquele silêncio era a sua ausência. E eu preferia ter ouvido um bolero, vô.

Naquele noite, eu dormi na sua casa. Te vi em todos os lugares: nas fotos do corredor, nos porta-retratos, no seu banheiro, em todos os cantos da sala, no seu pente em cima da mesa de centro, no seu colírio do lado do telefone, no seu remédio na bancada da cozinha, no seu jornal em cima do lixo. Te vi dentro da geladeira quando eu fui pegar uma água, te vi no seu iogurte preferido, na sua margarina com ômega 3, no seu leite de soja, na sua bolacha diet. Te via em todo aquele silêncio. Te via em toda aquela ausência. Mas eu preferia ter ouvido um bolero, sabe?

Quando os seus amigos vieram se despedir de você, eu te vi em todos eles. Te vi nas suas piadas, nas suas festas, nos seus sorrisos, nos seus olhos azuis acinzentados e generosos– porque, depois dos 80 anos com Parkinson, a gente não economiza sentimento. Te vi na tia Lucy, na Sônia e na Lili. Te vi na sua irmã. Te vi no Neto, no Gustavo, no Guilherme, no Gabriel, no Fernando. Te vi na vó. Te vi no meu pai, no Getulinho, na tia Marilena. Te vi na minha mãe, na Beth, no tio Antônio Carlos. Te vi em todo lugar, em todo o silêncio. Te vi onde não te escutava, onde eu não te ouvia. Mas preferia ter ouvido um bolero, vô, você sabe.

Hoje, eu decidi ouvir um bolero. Aquele que fala da barca que tem que partir; aquele que fala sobre despedidas, sobre a distância, sobre as saudades. Aquele que você me ensinou, lembra? O seu bolero preferido. O meu preferido. O nosso bolero, vô. Vou ouvir o nosso bolero hoje e sempre que eu pensar em você. Acho que eu vou ouvir esse bolero todos os dias da minha vida, vô. Tudo bem por você?

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