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Arquivo mensal: março 2014

Nos Pirineus, as janelas das casas são incríveis: antiquíssimas, de madeira e até separatistas — uma ou outra está sempre bradando pela Catalunya livre ao exibir com orgulho a bandeira catalã pró-independência, aquela com a estrela. As senhorinhas e os senhorzinhos, de povoados franceses na fronteira com a Espanha, têm seus nomes gravados nos bancos da Igreja, o que garante o lugar fixo nas missas. Os pôneis cavalgam tranqüilos pelas montanhas. Sim, eu disse pôneis. Muitos pôneis. Nunca vi tantos pôneis. Quem diria? Nos Pirineus, há pôneis. Não digam que eu não avisei.

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As fotos são minhas.

 

*Para todas as garotas, que merecem caras melhores do que o Juvenal

 

Talvez o que mais irritasse Cassandra no Juvenal fosse aquela camisa listrada sem um botão. Cassandra ficava fora do sério com isso: custava pregar o botão? Custava usar outra camisa? Era um descuido tão grande que Cassandra dizia não suportar o Juvenal — o que acabava sendo interpretado como puro ciúmes pela tia Mirtes. “Você não gosta dele porque a sua irmã parou de te dar atenção quando ele apareceu, Cassandra”, dizia em tom de constatação. Tio Orestes, a prima Rita, o primo Almir e a nonna Rosa achavam a mesma coisa. Ouviu essa história tantas vezes que foi convencida de que tudo era puro fruto de um ciúmes fraternal. Coisa de irmã. Era. Mas não era só isso.
– Tia, o Juvenal não tem nada de bom. Não sei o que a Bianca vê nele. Juro. Esperava que a minha irmã acabasse com alguém melhor — lamentava.
– É ciúmes, o moço é ótimo — retrucava tia Mirtes.

Ninguém levava a Cassandra a sério. Talvez porque ela fora a vida toda pessimista demais. Dizia coisas desagradáveis o tempo todo. “Ritinha, tô achando que você ainda quebra o pé nesse patinete”; “Almir, a Lucielly só quer o seu dinheiro”; “Nonna, acho que a senhora está ficando esclerosada”; “Tia Mirtes, a senhora nunca vai ganhar nesse bingo, pelamordedeus”. Ninguém gostava de ouvir a Cassandra. Ritinha proibiu a prima de ir visitá-la no hospital depois da cirurgia que corrigiu os ligamentos do tornozelo. Almir ficou três meses sem falar com ela enquanto negociava uma pensão de vender a alma durante o divórcio com a Lucielly. A Nonna esqueceu que estava ficando esclerosada e chamou Cassandra para almoçar todos os dias em casa, enquanto a chamava de Judite — sua melhor amiga da infância. Tia Mirtes perdeu mais de quinhentos reais num caça-níquel e fez a Cassandra pagar as compras do mês de fevereiro e mandar entregar lá na sua casa na rua Oliveira Mello. Cassandra era muito inconveniente.

Era tão inconveniente que quando o Juvenal apareceu com uma moto novinha, uma Harley Davidson, a primeira coisa que Cassandra perguntou era se ele tinha feito seguro. Diante da negativa, exclamou “um descuidado!” e saiu da garagem batendo o pé.

Exatamente como a Bianca entrou em casa um mês depois, aos prantos, contando para a família que tinha acabado. Tudo. Era o fim. Juvenal não seria mais seu marido. E ela queria vender aquela aliança de noivado bem baratinho para se vingar do safado — que estava pagando a jóia a prestação.

Cassandra respirou aliviada. Mas isso foi antes da Bianca contar TUDO. Acontece que Juvenal, esse descuidado, foi pego se atracando com outra garota em cima da Harley. Pior: ele foi pego na garupa. “Acredita que ele deixou a vaca dirigir a Harley? Ele não me deixava chegar nem perto do guidão, esse cafajeste”, xingou.

Mas não foi só isso, claro. A Bianca, depois de ter pego o moço com outra garota na moto pelos lados da Lins de Vasconcelos, pressionou o ex-noivo até ele admitir que estava saindo com a vendedora da concessionária há quase cinco meses — quando ele decidiu comprar uma moto. Entre o Juvenal e a vadia, rolou de tudo quanto é tipo de safadeza — Bianca quis morrer. Como foi tão cega, tão tonta? Como nem desconfiou? Todo aquele tempo namorando uma “moto” nova? Meu Deus, Que Absurdo. “Cassandra, você tinha razão o tempo todo! Ele nunca prestou! Minha irmã, por que eu não te ouvi?” e a abraçou. Cassandra odiava ter razão. Cassandra só conseguia pensar que, além de traidor, Juvenal era um descuidado. Como o cara passeia assim com a amante em plena Lins de Vasconcelos? Infeliz. Grandíssimo filho-da-mãe (Em tempo: não foi mãe que Cassandra disse). Tia Mirtes preparou um chá de camomila para a Bianca e levou a sobrinha para dormir e tentar esquecer essa história.

Cassandra ficou sozinha na sala, em choque. Com ódio do Juvenal. De si mesma. Por que eu sempre estou certa? Que inferno. Não queria, por nada, ver a Bianca daquele jeito. Preferia estar errada. Preferia odiar o Juvenal apenas por ciúmes da irmã. Mas Juvenal não prestava, como ela previu. Ódio.

Saiu de casa, precisava de ar. Andou quatro quarteirões e foi bater na porta do seu Silvinho. Bateu tão forte que o senhorzinho, abriu a janela com medo que fosse assalto ou polícia — nos dias de hoje, não dá para saber o que é pior.

– Seu Silvinho, abre esse bar agora.
– Tá louca, Cassandra? É segunda-feira, passou da meia noite. Vá para casa, menina.
– Seu Silvinho, eu preciso de uma dose e o senhor sabe que não tem nada lá em casa.
– Uma dose? Você está louca! Da última vez que eu dei uma dose para alguém da sua família de madrugada veio toda a reunião do AA aqui em casa me dar sermão. Manda o Almir tomar um copo d’água e parar de sair com mulher interesseira.
– Seu Silvinho, é para mim.

Seu Silvinho, surpreso, desceu imediatamente. Abriu a porta, a garrafa e encheu um copo de requeijão com tudo que tinha dentro daquele White Horse. Cassandra começou a desabafar. Seu Silvinho era o psicólogo mais requisitado da região. Ficou chocado. Disse que achava incrível o Juvenal arranjar uma namorada, quiçá uma amante. Cassandra concordou.

– Mas, Cassandra, você sabe que essa foi a primeira vez que o Juvenal traiu a sua irmã, certo? Porque se ele tivesse feito isso antes, vocês já saberiam. Ele é um….
– … Descuidado! Eu sempre disse que… — e, antes que pudesse completar a frase, Cassandra derrubou o copo na bancada do seu Silvinho… Um desastre, um descuido.
– Perdão, seu Silvinho.
– Imagina, menina, acontece. Vou pegar um pano.
– Deixa que eu pego, seu Silvinho. É na área de serviço, né? Eu resolvo! — disse, gentilmente.

Achou o pano e viu, de relance, uma garrafa completa de álcool 96. Achou estranho. Quem tem álcool 96 hoje em dia? Esse negócio entra em combustão! Um descuido e o bar inteiro do seu Silvinho podia incendiar. Seu Silvinho é maluco. Que horror. Esse negócio nem é permitido… Só anda com álcool 96 quem quer fazer churrasco, ou está mal intencionado… Que coisa louca.

Enquanto limpava a bancada melada do bar do seu Silvinho, Cassandra disse, ligeiramente alcoolizada.
– Seu Silvinho, ele nem merecia ficar com a minha irmã!
– Sua irmã é areia demais para o caminhãozinho dele, Cassandra. Eu concordo. Mas ele não está nem aí. Esse aí só sofre agora se perder aquela moto…
– Verdade. E aquela porcaria nem tem seguro, seu Silvinho!

Os dois riram. Cassandra deixou o pano na cozinha, se despediu do seu Silvinho e voltou para casa caminhando, de madrugada. Na altura da Frei Durão, viu a Harley do Juvenal. “Um descuido e ele ainda perde essa moto sem seguro”, pensou. E lembrou do que a Bianca disse: “pelo menos, ele ainda vai ter pagar as prestações desse anel por meses”…

***
Terça, às 10h, na cozinha.
– Cassandra, bom dia, querida!
– Como está a Bianca, tia?
– Ótima!
– Como assim ótima?
– Cassandra, nunca esqueça: o mal que a gente faz volta para a gente. Regra da vida, entendeu? Ontem à noite, a Harley Davidson do Juvenal pegou fogo na Frei Durão. Ele está chorando até agora, aquele infeliz. Longe de mim, ficar contente com a desgraça alheia, mas o safado mereceu. Ah, como mereceu!
– Mas o que aconteceu, tia? Como pegou fogo?
– Não sei, nem quero saber. O que importa, como você mesma disse, é que aquela porcaria não tem seguro!
– E o Juvenal ainda tem 22 prestações para pagar…

Às 11 da manhã, quando o seu Silvinho foi abrir o bar, deu falta de um álcool 96 e uma caixa de fósforos. Foi comprar na venda. Não lembrou de ter usado o álcool. A caixa de fósforos devia ter perdido em algum canto. Um descuido. Obviamente.

Fim.

Foto do Gadgee Fadgee

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Estava eu, nesta quarta-feira de cinzas, a caminhar sozinha pelas ruas de Lisboa — que, como eu, também estavam completamente sem companhia. No meu trajeto, do Mosteiro dos Jerónimos ao bairro Alto, encontro com um parente/amigo/conhecido a cada esquina. Todos me perguntam, ansiosos, em desespero, ávidos pela informação:
– Quando é que vamos comer um pastel de nata?

Eu, aflita, digo que não sei quando, nem como…
Eles, frustrados com a minha resposta, desaparecem, não deixam vestígios.
E eu continuo a vagar só rumo ao bairro Alto, em uma Lisboa ensolarada e ao mesmo tempo vazia e triste nesta manhã de feriado de cinzas.

Desperto. Em São Paulo.
Há um oceano de distância de Lisboa.
Um Atlântico inteiro.
Suspiro.

Talvez a vida seja demasiado solitária sem saber quando vamos comer pastéis de Belém de novo.

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