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Arquivo mensal: abril 2014

Sagrada Família, Barcelona. (Foto: Vanessa D'Amaro)

Sagrada Família, Barcelona. (Foto: Vanessa D’Amaro)

Há quem acredite que a ventania espanhola seja exclusiva da região de La Mancha, como contam os filmes do Almodóvar. Mas o vento é feroz dos Pirineus ao Gibraltar, e dá as caras na Catalunya em um começo de primavera. Em Barcelona, venta. Venta demais. Venta tanto que aparece na previsão do tempo. “O que quer dizer esse símbolo?”, pergunto. “Quer dizer eu vai ventar amanhã”, me explica a minha prima, quem eu fui visitar. Previsão do tempo: ventania. Apenas. O vento da Catalunya é um baluarte. Ele não sopra. Ele uiva. Derruba sinais de trânsito de aço, levanta toldos, fecha torres e mirantes e, quando encanado, destrói a arrumação de leques da loja de souvenirs vizinha à Igreja da Sagrada Família. “Não gosto de dormir nesse vento”, me diz. Não acontece todo dia, mas é freqüente nessa época do ano. Os guias de viagem não te contam sobre o vento. Você é pego de surpresa, seja sul-americano ou europeu: o vento gela. Mãe e filha brasileiras se amontoam dentro do ônibus turístico e trombam — sem querer, sem prever — com mãe e filho britânicos que também concordam que “it’s just too cold and windy to be outside”. Peraí, Barcelona não era a pérola do mediterrâneo? Clima agradável? Destino de veraneio?

Moças de cabelos volumosos, sem alternativa, amarram seus cachos em rabos de cavalo no topo da cabeça. Enrolam seus pescoços em cachecóis e compram casacos novos, com capuz. Gorros não servem nesse vento. Fuligem e areia viram traves nos olhos dos turistas que se protegem com óculos escuros, mesmo neste tempo nublado. O vento não perdoa. Desvia a atenção no Parc Güell e faz turistas culparem o tempo por não amarem Gaudí. Tudo bem não amar Gaudí. Pode-se gostar de Barcelona sem gostar, necessariamente, de Gaudí. Mas talvez seja mais fácil amar Gaudí em dias de sol. Para gostar de Gaudí, tem que ter sol…

Gaudí, inclusive, é tema de toda e qualquer roda de turistas em Barcelona — ainda que não se ame Gaudí. Seja pelas obras, parada obrigatória no city tour, seja pelo seu atropelamento que é mencionado em TODO guia sobre a cidade. Gaudí foi atropelado por um tram na esquina da Gran Vía com a Carrer de Balién. Morreu três dias depois, no hospital. Uma tristeza. O ônibus turístico faz questão de citar essa informação, toda vez que ele faz a curva na avinguda — avenida, em catalão. Pobre Gaudí. Por isso, todo turista deve ter cautela ao atravessar a rua. Ainda que isso aqui seja a Europa. Em Barcelona, nunca se sabe quando um tram pode aparecer. “Aqui, atropela-se gente. Cuidado”, alerto minha mãe.

Talvez por ele ter sido um gênio, seja tão caro entrar em qualquer coisa que Gaudí tenha projetado nessa cidade. Ainda que não se ache grande coisa ou valha os quinze euros, às vezes até mais. Entrar na Sagrada Família é fundamental. Ela é mil vezes mais bonita por dentro. A luz, as cores, o teto que alcança o céu… Tudo emociona, o que é raro na obra de Gaudí (a esta altura do texto, eu não preciso explicar a vocês que eu não sou muito fã do arquiteto, certo?). Amei a Sagrada Família. Não achei que iria amar, visto que eu não acho o Gaudí… Vocês já entenderam, certo?

Me acho, por vezes, antiquada quando confesso que meu coração disparou mesmo pelo bairro gótico e sua catedral, ou pela zona portuária, ou pela Barceloneta e suas areias artificiais, ou pelo Montjuïc, ou pela plaça Catalunya — com um bom ç, como manda o idioma catalão. Aliás, que coisa incrível que é a língua catalã! Tão mais interessante do que Gaudí…

Mas confesso para vocês: há grandes chances de minha implicância com Gaudí ser fruto de um desejo incontrolável de tentar não ser somente uma turista standard. Apenas digo que pode ser fruto do mesmo mau humor de que padeço quando minha mãe sugere dar uma olhada em uma loja de souvenirs. Eis que eu resmungo: “Você não precisa desse leque”; “Tanto imã, para quê?”; “Essa camiseta é horrorosa, só vai servir para dormir”; “Você acha isso legal agora, quando chegar em São Paulo vai se perguntar porque gastou tanto dinheiro com um negócio tão cafona…”. Esta última, inclusive, é minha incoerência preferida de toda a viagem. Eu digo isso enquanto tiro dez euros da bolsa e compro duas cúpulas de abajur com reproduções de vitrais do Gaudí… E, veja bem: eu nem morro de amores pelo cara!

Se tem uma coisa que viajante nenhum para para olhar em Barajas, o aeroporto internacional de Madri, é o teto de bambu — com certeza, o maior trunfo arquitetônico do projeto de Richard Rogers. Esse teto é um primor. Mas ninguém está nem aí para ele. Em Barajas, as pessoas correm: de salto, de tênis, de sapatilha, de havaianas, de botas de cowboy. Só se corre em Barajas — seja de mochila, seja de mala de rodinhas. Barajas é pura endorfina porque todo mundo tem uma conexão para pegar em um terminal distante. E as placas vêm com as indicações mais o tempo de caminhada: “RSU — 24 minutos”. É tudo longe. É tudo do outro lado do planeta — e ele, com certeza, está inteiro em Barajas fazendo conexão.

Correm judeus ortodoxos, correm europeus com barbas longas e trançadas, correm americanos com tênis Nike e calças vermelhas em grupos de dez pessoas, correm drag queens sul-americanas, correm moças árabes de véus na cabeça, correm caras com pochetes penduradas no pescoço, correm assessoras de imprensa do Brasil que me encontram, de férias, e param apenas para um minuto de prosa. Um minuto contado, veja bem. Não temos tempo para mais do que isso.

Poucos são aqueles que não correm, ou param de correr, quando encontram o painel com os horários e portões de embarque. Em Barajas, esse é o único jeito de saber para onde correr, ou quando é hora de parar. Raríssimos, são aqueles que tiram um cochilo nas cadeiras de alumínio. Estes recebem olhares de reprovação, afinal, um cochilo é um verdadeiro pecado para os viajantes maratonistas de Barajas.

Entre aqueles que esperam, poucos parecem tranquilos. O viajante padrão se posiciona em frente ao painel de voos, que checa a cada vinte e dois segundos. Quem não faz isso é o moço britânico, alto, loiro que lê um moleskine todo preenchido com uma caligrafia grande. Ele parece o designer inglês Tom Price. Talvez eu devesse tê-lo cumprimentado, caso realmente fosse mister Price. Mas quem disse que ele vai se lembrar da jornalista brasileira para quem contou sobre a sua mãe numa festa de gente rica na Alameda Gabriel Monteiro da Silva?

Paro em frente ao painel. Estou aqui há vinte minutos, mas é tempo suficiente para ser tratada como especialista pela família brasileira que vai passar as férias em Roma. Explico como checar o painel e para onde correr quando o portão de embarque for anunciado. Eles me agradecem, dizem que é muito difícil fazer isso pela primeira vez. Eu concordo, com a minha cara de veterana — aquela que conhece bem o aeroporto apenas por já ter corrido por estes corredores por meia hora há dois anos, sem sequer ter reparado no teto de bambu do Richard Rogers. Compenso desta vez. Não paro de olhar para o teto. Faço isso até o painel nos indicar o portão J61. Pego a minha mala de rodinhas, prendo o meu cabelo e corro. Desta vez, calçando um tênis de corrida. Vim preparada. Tem que ser assim em Barajas.

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