Barajas, el aeropuerto

Se tem uma coisa que viajante nenhum para para olhar em Barajas, o aeroporto internacional de Madri, é o teto de bambu — com certeza, o maior trunfo arquitetônico do projeto de Richard Rogers. Esse teto é um primor. Mas ninguém está nem aí para ele. Em Barajas, as pessoas correm: de salto, de tênis, de sapatilha, de havaianas, de botas de cowboy. Só se corre em Barajas — seja de mochila, seja de mala de rodinhas. Barajas é pura endorfina porque todo mundo tem uma conexão para pegar em um terminal distante. E as placas vêm com as indicações mais o tempo de caminhada: “RSU — 24 minutos”. É tudo longe. É tudo do outro lado do planeta — e ele, com certeza, está inteiro em Barajas fazendo conexão.

Correm judeus ortodoxos, correm europeus com barbas longas e trançadas, correm americanos com tênis Nike e calças vermelhas em grupos de dez pessoas, correm drag queens sul-americanas, correm moças árabes de véus na cabeça, correm caras com pochetes penduradas no pescoço, correm assessoras de imprensa do Brasil que me encontram, de férias, e param apenas para um minuto de prosa. Um minuto contado, veja bem. Não temos tempo para mais do que isso.

Poucos são aqueles que não correm, ou param de correr, quando encontram o painel com os horários e portões de embarque. Em Barajas, esse é o único jeito de saber para onde correr, ou quando é hora de parar. Raríssimos, são aqueles que tiram um cochilo nas cadeiras de alumínio. Estes recebem olhares de reprovação, afinal, um cochilo é um verdadeiro pecado para os viajantes maratonistas de Barajas.

Entre aqueles que esperam, poucos parecem tranquilos. O viajante padrão se posiciona em frente ao painel de voos, que checa a cada vinte e dois segundos. Quem não faz isso é o moço britânico, alto, loiro que lê um moleskine todo preenchido com uma caligrafia grande. Ele parece o designer inglês Tom Price. Talvez eu devesse tê-lo cumprimentado, caso realmente fosse mister Price. Mas quem disse que ele vai se lembrar da jornalista brasileira para quem contou sobre a sua mãe numa festa de gente rica na Alameda Gabriel Monteiro da Silva?

Paro em frente ao painel. Estou aqui há vinte minutos, mas é tempo suficiente para ser tratada como especialista pela família brasileira que vai passar as férias em Roma. Explico como checar o painel e para onde correr quando o portão de embarque for anunciado. Eles me agradecem, dizem que é muito difícil fazer isso pela primeira vez. Eu concordo, com a minha cara de veterana — aquela que conhece bem o aeroporto apenas por já ter corrido por estes corredores por meia hora há dois anos, sem sequer ter reparado no teto de bambu do Richard Rogers. Compenso desta vez. Não paro de olhar para o teto. Faço isso até o painel nos indicar o portão J61. Pego a minha mala de rodinhas, prendo o meu cabelo e corro. Desta vez, calçando um tênis de corrida. Vim preparada. Tem que ser assim em Barajas.

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