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Arquivo mensal: setembro 2014

 

Se existisse um verbete para definir saudades no dicionário de papiamento (a língua, que ao lado do holandês, é o idioma oficial de Aruba), ele conteria a descrição perfeita do táxi do Charlie. Conhecemos o Charlie enquanto fugíamos de um bar cheio de borrachudos há alguns minutos de Oranjestad, pouco depois do maravilhoso pôr do sol da Divi Beach.

Não demorou muito para Charlie descobrir que éramos brasileiros e que poderia tentar desenferrujar o seu português capenga na corrida dali até Palm Beach. Demorou menos ainda para Charlie nos contar que ele, há alguns anos, fora ele o maître mais famoso de Aruba. Já estávamos há dias na ilha e, nessa altura do campeonato, já entendíamos bem os arubanos – todo mundo era o mais famoso de Aruba em alguma coisa. Já tínhamos, inclusive, conhecido o taxista que falava português mais famoso da ilha: o Papi. Este possuía uma propriedade no centro da Aruba, com granja e uma muda de feijão. Papi havia participado de um comercial de TV falando português e colecionava ditados populares brasileiros (nos recitou uns dez, começando por “uma andorinha não faz verão”). Disse que podia se casar com uma brasileira mais velha, gordinha – mandou avisar por aí. Ele também nos deu as primeiras lições de papiamento e falou bem devagar para provar que brasileiro pega rápido a língua do baixo Caribe. O problema é que só consigo me lembrar de Aruba ta bonita, que é auto-explicativo, e de “dushi”, que significa um monte de coisa boa. Mas vamos voltar ao taxi do Charlie…

“Valentino’s era o restaurante mais famoso de Aruba. The best! Everybody queria ir no Valentino’s”, conta Charlie no seu taxi imenso de sete lugares. “Todos queriam Charlie”, se orgulha da fama e segue explicando que o restaurante italiano não só apenas o mais famoso da década de 90, mas da História de Aruba. E Charlie que fala sempre na terceira pessoa (“Charlie era homem mais conhecido de Aruba, see?”, explica) pode te provar. Ele guarda no porta-luvas do carro uma série de fotografias impressas do antigo restaurante mais incrível da ilha. Todas elas em papel grande, tamanho A4. Há fotos da entrada, do amplo salão com decoração demodê dos anos 80 e de todos os inúmeros garçons de todas as nacionalidades – um deles, pernambucano, havia ensinado Charlie a falar o português.

– E o que aconteceu com o Valentino’s, Charlie?, pergunto.

– Marriott Surf Club. That’s what happened. Ofereceram millions, dono do Valentino’s disse sim. And GOODBYE, CHARLIE! – e cai na gargalhada.

O Surf Club faz parte da rede americana Marriott, que possui hotéis no mundo todo. Só em Aruba são três. Estamos hospedados em um deles. O Valentino’s foi demolido para dar lugar a piscinas, jardins com palmeiras, salas de ginástica, salas de massagem, ballrooms, cassinos… Porque o Marriott é um verdadeiro paraíso na Terra para qualquer turista, mas transformou a vida do Charlie em nostalgia. “Charlie fala sete línguas: papiamento, holandês, inglês, francês, italiano, português e alemão”. E, como um narrador de futebol, passa de uma para a outra e recita ditados, receitas de bolo, frases preparadas e sabe-se-lá-o-quê esse homem está falando… Tudo para impressionar o turista. Afinal, o que vale num país que vive de estrangeiros é o espetáculo. Charlie não fez faculdade, mas mandou os filhos para a Holanda para estudar – Aruba faz parte do reino holandês. Foram com bolsa do governo, esclarece. Falam todas as línguas, aprenderam na escola porque muitos idiomas fazem parte das disciplinas obrigatórias da rede de ensino do país. Por isso, Charlie fica chocado com os americanos. Como pode falar só um inglesinho mixuruca? Acha que é preguiça da gringaiada. Um idioma não pode ser suficiente. “Charlie is much more intelligent” e gargalha de novo. Eu digo para o Charlie que eu falo italiano.

– Io parlo meglio, provoca.

– Não sei não, Charlie. Parlo benissimo, sai?

Resmunga alguma coisa, “até parece”. Gargalha. Tolinha. Charlie é nostalgia, mas também é só alegria. E alegria e nostalgia devem combinar em papiamento. É que Aruba é a ilha da felicidade, como diz o slogan do governo. Muito bom viver aqui. E segue falando bem do primeiro ministro, da saúde e, termina a corrida, rindo e contando – imperdível – da sua sobrinha, a moça de 20 anos mais bonita de Aruba, ainda que não tenha ganhado qualquer concurso de miss. E precisa? Se Charlie está dizendo, não resta dúvida, né, minha gente?

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