arquivo

Arquivo mensal: junho 2015

E-mail enviado ao meu amigo Nilbberth, no segundo dia após ter chegado ao Oriente Médio. 

Estou hospedada numa guest house católica, anexa a um convento. Num bairro afastado de Jerusalém chamado Ein Kerem. Cheguei em Jerusalém ontem às três da manhã. Era shabbat. O convento, onde estou hospedada, tem um jardim imenso com rosas, margaridas, lavanda… Mas, na noite em que cheguei a Jerusalém, nada disso estava fácil de ver. Porque as noites em Jerusalém estão bem escuras esses dias. Não se vê a lua, apenas vi as estrelas porque o céu de Jerusalém é completamente limpo. E as estrelas de Jerusalém são outras estrelas. Não são estrelas como as nossas. São outras constelações, outras configurações. Um céu completamente novo. Estou aqui há dois dias e acho que, nesse mundo, nada pode ser mais crucial do que Jerusalém. O mundo inteiro e todas as suas contradições estão aqui. Há árabes e muçulmanos de todos os tipos. Há judeus de todos os tipos. E pouquíssimos cristãos. A maioria de nós é visitante. A maioria de nós anseia por uma boa acolhida. Somos todos peregrinos e estrangeiros em Jerusalém.

No convento, onde estou hospedada, algumas freiras vivem em clausura. Mas abrem um sorriso e nos abraçam quando nos encontram no café ou no pátio. Porque a clausura não é tão clausura assim. São uns amores, simpaticíssimas, ainda que ninguém as devesse conhecer. Elas nos levaram para ver um coral de judeus que canta música sacra cristã. Uma das contradições de Jerusalém. Assim como os árabes muçulmanos que tomam conta de tantas igrejas… Jerusalém é uma cidade que mexe com a sua cabeça…

Ficarei mais dias hospedada em Jerusalém, mas vou ao deserto e volto. Quando voltar, não tem mais lugar no convento. Estou sofrendo por antecipação. Esse convento é maravilhoso. Não quero ir embora. Fico no centro da cidade depois. Mas não sei se quero abandonar essa Jerusalém para além dos muros. Tirei fotos desfocadas do portão e do céu à noite já com saudades do que nunca foi meu. Estou apaixonada por este lugar, por Eim Kerem e por essa Jerusalém rural. Não queria que acabasse… Mas amanhã é outro dia.

Se der, continuarei compartilhando as aventuras.

(Abril/2015)

%d blogueiros gostam disto: