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boas vindas


Ela abriu a porta do seu escritório.

– Pode entrar, só não repare a bagunça! –disse.

Entrei, e me fixei perto da porta. Ela se dirigia à mesa de estudo, que ficava a menos de um metro de onde eu estava. Deu o primeiro passo em linha reta, logo em seguida virou um pouco para a esquerda, desviando da enorme caixa de papelão que estava a sua frente. A sandália surrada que usava parecia conhecer o caminho de cor. Sem hesitar pulou para a direita, desviando da enorme pilha de livros. Mais uma pilha de livros também à direita (essa batia na altura do joelho), e mais um rápido desvio. Até que a jornada a mesinha teve um final feliz.

Fitei, então, a mesinha. Inúmeros papéis de bala jogados formavam uma moldura em volta do caderno de anotações, do teclado do computador e até mesmo dos documentos empilhados. Um relógio velho que provavelmente não funcionava mais. Uma borracha já bastante usada. Várias canetas. Alguns lápis. Clipes. Cds. Disquetes. Vi também uma escova de cabelo. Os inúmeros fios presos nos dentes da escova denunciavam que o cabelo fora bastante escovado, bastante penteado. (Curioso! Não era o que aparentava).

– Mas não está aqui! Onde pode estar? – disse e olhou para mim.

Fiz cara de desentendimento.

Ela se dirigiu ao armário. Eu já estava amedrontada, mas ansiosa, a curiosidade era grande. Ela abriu o armário. Rapidamente colocou o braço sobre os livros que ameaçaram cair. Pela rapidez do movimento, conclui que não era a primeira vez que tal manobra era executada.

O armário seguia os mesmos padrões da mesinha. Livros, e mais livros. Papéis, muitos papéis. Mais documentos, canetas. Ela, então, ameaçou abrir a outra porta do armário. Decidi fechar os olhos, eu não queria mais julgar sua forma de organização. Fechei. E meu olho direito, deu uma espiada no ambiente. Abri os olhos. Numa fração de segundos imaginei o que viria por de trás daquela porta do armário.

Ela abriu a porta do armário, e mais livros empilhados, mais documentos, até mesmo um agasalho de lã estava ali. Foi quando eu vi! A sandália surrada daria um passo para trás e derrubaria toda a outra pilha de livros que ficava na frente da porta do armário! No impulso, quase gritei: “Cuidado! Você vai derrubar os livros!”.

Não o fiz. Não por falta de educação ou delicadeza, mas porque achava que a minha interrupção não faria diferença. Além disso, fiquei muito interessada no que aconteceria caso a sandália surrada derrubasse a pilha de livros…

E a sandália surrada derrubou a pilha de livros. Ela nem olhou para trás. Tinha achado o meu papel perdido. Com um sorriso de satisfação, veio entregá-lo a mim. Pulou mais uma caixa de papelão. Desviou dos livros derrubados, sem olhá-los, eles agora faziam parte da decoração. Desviou de uma pilha de livros à direita, desviou novamente. Desviou de mais uma pilha de livros, dessa vez à esquerda. E entregou-lhe em minhas mãos. Eu agradeci e me retirei…

“Não repare a bagunça” ela me disse.

*A foto de .pst veio daqui. 

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