Paris, aos (quase) 30

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O seu nome ecoa na minha cabeça enquanto eu te espero no lobby do hotel Metropol. Está frio em Paris, cinco graus. Não era para estar tão frio. Eu visto um casaco pesado por cima de um vestido preto com decote em V e manga comprida. Eu uso o cabelo da Veronica Lake. Você aparece de calça jeans, camiseta e blazer. Você está com um cachecol xadrez e uma boina idiota que você comprou em uma ladeira de Mont Martre.

Nós descemos a Rue de Maubeuge de braços dados tarde da noite. A gente passa pelo café em que eu aprendi a pronunciar eau, água. O supermercado Champion já está fechado. Nostalgia. A gente caminha na Maubeuge até chegar na rue La Fayette. A gente passa pela galeria e vê a Ópera Garnier pelos fundos. Você não acha a menor graça nisso. Eu adoro descobrir o prédio pelo lado errado. Eu gosto tanto dessa Ópera. Você sabe disso. Você me puxa pela mão e me leva até os degraus da entrada. É quase um tapete vermelho. Meu coração acelera. Eu sou Maria Callas em noite de estreia. Nós dois rimos do meu devaneio. Isso é ridículo. Podia ser noite de ópera. Podia. E saímos gargalhando juntos pela rue de la Paix.

Quando nos damos conta, já estamos na Place Vendôme. Está frio. Eu tiro o meu casaco e jogo na calçada. Ele não vale nada aqui na frente da Dior. Eu danço por nós dois. Você não hesita. Você dança junto. Assim sem música mesmo. Você toca guitarra imaginária, eu toco violão. Eu danço MPB. Você dança rock progressivo.

Eu começo a gargalhar da nossa falta de ritmo. Os seguranças franceses do Ritz viram os olhos para nós dois. Turistas. Você ri comigo, tira o seu cachecol, coloca ele no meu pescoço, me pega pela cintura e encosta a sua testa na minha. Você está tão perto que fica fora de foco. A gente dança um bolero. Eu imagino No me platiques mas; você acha que é Besame mucho. Eu canto com o meu espanhol capenga. Não tem nada de parisiense nisso. Nós dois somos ridículos. Um casal passa de bicicleta em direção a rue de Castiglione e ri da nossa criancice. E eu vou fazer trinta anos, acredita? Quase 30. Falta pouco para eu chegar lá. Não falta nada para você. Mas hoje nós temos quinze, como eu tinha quando estive aqui pela primeira vez. Eu e você. A mesma idade. Só por hoje. Sua boina idiota cai no chão enquanto você me rodopia perto do Obelisco. Eu sorrio. Você me tomba para a direita. Olho no olho. Eu faço tudo o que você disser. Você devia se casar comigo. O que é que a gente está esperando? Sua boca chega a meio centímetro da minha. Meus lábios te esperam. Você sorri. Meu despertador toca.

Eu acordo com os lábios em febre. Levanto de pijamas e vou até a cozinha tomar um copo d’água. Nós não estamos mais em Paris. Eu estou sozinha. Você ficou no I arrondissement. São seis e doze. Voltei a ter 25 anos. Quando a água cair no estômago, vai ser só terça-feira. Vai ter trânsito. Vai ter reunião às três da tarde. E eu só vou me lembrar que eu sonhei de novo com Paris, com aquele hotel, com a rue de Maubeuge. Como sempre. Eu já não me lembro mais de você, de nós dois. A vida é cruel. O cotidiano esmaga os nossos sonhos. A realidade é estreita. Às dez da manhã no elevador da firma, eu aperto o quinto andar e eu já não me lembro de mais nada. Engraçado sonhar com Paris. Lábios ardendo. Por que será? Que coisa louca! Opa, é o meu andar…

foto de jean louis zimmermann. 

Capri, hormônios e lágrimas

Eu desembarquei na Ilha de Capri, sul da Itália, por volta do meio dia num domingo, 24 de junho, dia de São João Batista. Eu tinha acordado às quatro horas da manhã em Roma. Passei horas dentro de um ônibus desconfortável com meus pais e meu irmão a caminho de Pompéia, região da Campania. Visitamos o sítio arqueológico na primeira hora da manhã (isso é tema para outro texto) e partimos para o porto de Nápoles, onde embarcaríamos finalmente para Capri em uma espécie de catamarã de alta velocidade. Uma hora mais tarde, estávamos todos na minúscula marina da ilha. O mar era azul marinho, como só o Mediterrâneo sabe ser. As casas branquinhas eram perfeitas até nas suas infiltrações, bolhas e pinturas mal tratadas pela maresia. Capri, como Nápoles, exibe as roupas dos seus moradores em varais extensos pelas janelas. Era um cenário de sonhos e eu achei que viveria um dia incrivelmente feliz – se sobrevivesse ao cansaço e às altas temperaturas.

Capri fervia a quarenta graus nesse dia. Pegamos um micro-ônibus para subir a montanha e conhecer Annacapri (que significa “acima de Capri”, em grego), a cidadezinha com a vista mais deslumbrante de todos os tempos. Fomos almoçar. Macarrão, carne de porco, suco de limão e eu começo a chorar copiosamente sob a refeição. “Eu quero tanto viver este dia, quero tanto ser feliz hoje. Esse lugar é lindo, talvez eu não volte aqui nunca mais… mas eu estou tão cansada, tão cansada que eu não sei se vou ser feliz hoje, sabe?”. Minha mãe, que sabe reconhecer uma moça no auge da TPM, colocou as mãos sobre os meus ombros e me disse que tudo ficaria bem. Meu pai não entendeu nada. Eu não conseguia parar de chorar. Capri é talvez o lugar mais incrível que eu já vi, mas eu estava tão cansada que eu não sabia se conseguiria aproveitar. Hormônios. E chorei. Chorei. Chorei. Chorei. Saindo do restaurante, procuramos o mirante para ver Sorrento e a costa Amalfitana, as duas outras divas italianas. Paisagem de sonho. Dia perfeito. Lágrimas. Lágrimas. Lágrimas. Eu quero tanto não deixar esse dia morrer. Eu quero ser feliz hoje. Dentro do micro-ônibus de volta à praia, um dominicano animadíssimo começou a cantar “Ai, se eu te pego” do meu lado. O motorista italiano, que conduzia displicentemente pelas curvas estreitíssimas da ilha, resolveu nos apresentar seu repertório e colocou a música de Teló em bom português no mais alto volume. Todos os passageiros do micro-ônibus começaram a dançar desastradamente. Foi quando eu soube que não era dia de drama.

Na marina, pegamos uma pequena lancha para dar a volta na ilha e ver o famoso cartão postal de Capri: as duas pedras que se levantam do mar Tirreno como verdadeiros titãs. O condutor da embarcação era um italiano careca, bronzeado, chamado Massimo – tinha que ser. Quando entramos na gruta verde com a lancha, Massimo foi pró-ativo. “Senza gli occhiali, Signori! Senza gli occhiali, per favore, Signori”. Até os mais teimosos atenderam a súplica de Massimo e os óculos de sol saíram dos nossos rostos, que agora contemplavam o teto da gruta verde que parecia um céu estrelado, colorido, brilhante, como fogos de artifícios. Incrível, perfeito, emblemático. De vez em quando, eu penso nessa imagem assim do nada, no meio do dia, só para garantir que eu não vou me esquecer dessas cores nunca mais. Senza gli occhiali, Massimo, grazie. E eu, que já não chorava há mais de uma hora, tentei me conter. Só que as lágrimas já arrebentavam na minha pálpebra inferior. As gaivotas lindas e branquinhas faziam um V no céu enquanto voavam. Seguindo o rastro delas, eu vi aquelas pedras imensas, lindas, incríveis, mágicas. Eu não podia mais me conter. Chorei de novo. De felicidade. De amor. De admiração. De vontade de ficar ali para sempre vendo as pedras, as gaivotas e o azul do mar Tirreno. Ah, como eu me apaixonei pelo Tirreno! Eu devia ter ficado ali para sempre. Para sempre! Como aquelas gaivotas. Eu estava chorando de novo, tão feliz, tão emocionada. Era disso que eu estava falando. Era isso que eu queria viver ali. Aquela emoção, aquela felicidade. Nessa hora, eu sabia que o cansaço era o que menos importava. Eu vivi aquele dia do jeito que eu queria viver. Eu não queria descer daquele barco. O problema é que as minhas histórias de amor sempre chegam ao fim. Antes de perceber, eu via Capri da popa do catamarã. De longe, eu observei aquela ilha que guarda o sentimento de completude mais intenso que eu já vivi…

As lágrimas de felicidade ainda me visitaram no caminho de volta para Roma naquela noite. E eu comecei a rir, enquanto chorava, de tão ridículo que foi passar o dia em lágrimas no meio do Mediterrâneo, com quarenta graus de temperatura. Nada foi ameno naquele domingo. Nada. Eu quero voltar para Capri um dia. Quero voltar sorrindo. Mentira, eu quero chorar de novo. Quero ser ridícula de tanta felicidade, de tantos hormônios, de tantas emoções. Eu quero viver uma tempestade de sentimentos. Quero cair em lágrimas de nostalgia. Não tem graça viver com medo da felicidade. Quero chorar sempre. Quero viver Capri de novo, em vários lugares do mundo, se possível. Sempre senza gli occhiali, como eu aprendi com o Massimo.