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desencontros

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O quase-amigo é aquele cara que você conhece numa festa e descobre que é amigo de um colega de trabalho e conhecido daquele cara da faculdade que você não vê há um tempão. Ele já tomou uma cerveja com o seu primo num boteco da Vila Madalena há uns dois ou três anos e provavelmente estava naquele show, que você foi com aquela amiga de infância. O quase-amigo vira seu amigo no facebook, curte alguns dos seus posts, e, de vez em quando, comenta — quando acha pertinente. O quase-amigo é um cara bacana, gente fina pra ca*****. Tem potencial para ser um grande amigo, se vocês se vissem com mais frequência. E a gente quase se vê. Quase.

O quase-amigo é aquele cara que trabalha no sétimo andar, te cumprimenta no elevador e puxa papo na fila da lanchonete da empresa. É aquele cara que conversa com você durante dois ou três minutos enquanto o café expresso não vem, usando sempre frases típicas do mundo corporativo: “correria, né?”, “não tá fácil pra ninguém, mas a gente vai tocando”, “não vejo a hora de tirar férias”. O quase-amigo da empresa é seu amigo no facebook, curte todos os seus posts de trabalho e te indica um médico do plano quando você pergunta se alguém conhece um ortopedista. Vez ou outra, esse cara vai num happy hour com você. Depois de uns goles de cerveja, você descobre que ele é bacana, podia ser da turma. No calor do momento e da cachaça, vocês combinam de almoçar na quarta-feira, perto do trabalho, para bater papo. O almoço sai e é agradável. Não é sensacional. É suficiente para uma quarta-feira no meio do expediente. Qualquer dia, a gente marca de novo, beleza? Só que… Correria. Puta stress. Qualquer hora, rola. Não esquenta, não: estamos sempre aí. Quase dá certo. Quase.

O quase-amigo, às vezes, te deixa confuso. Você sempre fica em dúvida se convida ou não o quase-amigo para a sua festa de aniversário. Ele é um cara legal, bacana, mas você não sabe se combina com o resto da galera. O quase-amigo podia ser da galera. Mas será? Se ele fosse mesmo… puxa que legal! Ele podia ser da turma! Se a turma se encontrasse com mais frequência, a gente chamaria! Claro que chamaria. Mas, sei lá, deixa pra lá. Dessa vez, não. Na próxima? Você quase chama o quase-amigo pra festa. Quase.

O quase-amigo é aquele cara que te acha legal pra caramba. Te pergunta por que você está solteira e quer te apresentar um amigo dele do colegial. Você respira fundo. Sorri, fala que vai pensar e dá graças a Deus que os seus amigos não fazem mais isso porque eles sabem que você é uma chata. Os seus amigos já desistiram de você. Já dizem que você não vai achar ninguém desse jeito e te chamam de encalhada. O quase-amigo, coitado, tem esperança. Alguém avisa? Você mesma avisaria se sobrasse tempo ou tivesse mais cerveja em cima da mesa, mas… melhor deixar pra lá. Deixa ele continuar te achando tão legal. Ele não precisa saber. Não agora. Quer dizer, no fundo, ele quase sabe. Quase.

 

*Para todas as garotas, que merecem caras melhores do que o Juvenal

 

Talvez o que mais irritasse Cassandra no Juvenal fosse aquela camisa listrada sem um botão. Cassandra ficava fora do sério com isso: custava pregar o botão? Custava usar outra camisa? Era um descuido tão grande que Cassandra dizia não suportar o Juvenal — o que acabava sendo interpretado como puro ciúmes pela tia Mirtes. “Você não gosta dele porque a sua irmã parou de te dar atenção quando ele apareceu, Cassandra”, dizia em tom de constatação. Tio Orestes, a prima Rita, o primo Almir e a nonna Rosa achavam a mesma coisa. Ouviu essa história tantas vezes que foi convencida de que tudo era puro fruto de um ciúmes fraternal. Coisa de irmã. Era. Mas não era só isso.
– Tia, o Juvenal não tem nada de bom. Não sei o que a Bianca vê nele. Juro. Esperava que a minha irmã acabasse com alguém melhor — lamentava.
– É ciúmes, o moço é ótimo — retrucava tia Mirtes.

Ninguém levava a Cassandra a sério. Talvez porque ela fora a vida toda pessimista demais. Dizia coisas desagradáveis o tempo todo. “Ritinha, tô achando que você ainda quebra o pé nesse patinete”; “Almir, a Lucielly só quer o seu dinheiro”; “Nonna, acho que a senhora está ficando esclerosada”; “Tia Mirtes, a senhora nunca vai ganhar nesse bingo, pelamordedeus”. Ninguém gostava de ouvir a Cassandra. Ritinha proibiu a prima de ir visitá-la no hospital depois da cirurgia que corrigiu os ligamentos do tornozelo. Almir ficou três meses sem falar com ela enquanto negociava uma pensão de vender a alma durante o divórcio com a Lucielly. A Nonna esqueceu que estava ficando esclerosada e chamou Cassandra para almoçar todos os dias em casa, enquanto a chamava de Judite — sua melhor amiga da infância. Tia Mirtes perdeu mais de quinhentos reais num caça-níquel e fez a Cassandra pagar as compras do mês de fevereiro e mandar entregar lá na sua casa na rua Oliveira Mello. Cassandra era muito inconveniente.

Era tão inconveniente que quando o Juvenal apareceu com uma moto novinha, uma Harley Davidson, a primeira coisa que Cassandra perguntou era se ele tinha feito seguro. Diante da negativa, exclamou “um descuidado!” e saiu da garagem batendo o pé.

Exatamente como a Bianca entrou em casa um mês depois, aos prantos, contando para a família que tinha acabado. Tudo. Era o fim. Juvenal não seria mais seu marido. E ela queria vender aquela aliança de noivado bem baratinho para se vingar do safado — que estava pagando a jóia a prestação.

Cassandra respirou aliviada. Mas isso foi antes da Bianca contar TUDO. Acontece que Juvenal, esse descuidado, foi pego se atracando com outra garota em cima da Harley. Pior: ele foi pego na garupa. “Acredita que ele deixou a vaca dirigir a Harley? Ele não me deixava chegar nem perto do guidão, esse cafajeste”, xingou.

Mas não foi só isso, claro. A Bianca, depois de ter pego o moço com outra garota na moto pelos lados da Lins de Vasconcelos, pressionou o ex-noivo até ele admitir que estava saindo com a vendedora da concessionária há quase cinco meses — quando ele decidiu comprar uma moto. Entre o Juvenal e a vadia, rolou de tudo quanto é tipo de safadeza — Bianca quis morrer. Como foi tão cega, tão tonta? Como nem desconfiou? Todo aquele tempo namorando uma “moto” nova? Meu Deus, Que Absurdo. “Cassandra, você tinha razão o tempo todo! Ele nunca prestou! Minha irmã, por que eu não te ouvi?” e a abraçou. Cassandra odiava ter razão. Cassandra só conseguia pensar que, além de traidor, Juvenal era um descuidado. Como o cara passeia assim com a amante em plena Lins de Vasconcelos? Infeliz. Grandíssimo filho-da-mãe (Em tempo: não foi mãe que Cassandra disse). Tia Mirtes preparou um chá de camomila para a Bianca e levou a sobrinha para dormir e tentar esquecer essa história.

Cassandra ficou sozinha na sala, em choque. Com ódio do Juvenal. De si mesma. Por que eu sempre estou certa? Que inferno. Não queria, por nada, ver a Bianca daquele jeito. Preferia estar errada. Preferia odiar o Juvenal apenas por ciúmes da irmã. Mas Juvenal não prestava, como ela previu. Ódio.

Saiu de casa, precisava de ar. Andou quatro quarteirões e foi bater na porta do seu Silvinho. Bateu tão forte que o senhorzinho, abriu a janela com medo que fosse assalto ou polícia — nos dias de hoje, não dá para saber o que é pior.

– Seu Silvinho, abre esse bar agora.
– Tá louca, Cassandra? É segunda-feira, passou da meia noite. Vá para casa, menina.
– Seu Silvinho, eu preciso de uma dose e o senhor sabe que não tem nada lá em casa.
– Uma dose? Você está louca! Da última vez que eu dei uma dose para alguém da sua família de madrugada veio toda a reunião do AA aqui em casa me dar sermão. Manda o Almir tomar um copo d’água e parar de sair com mulher interesseira.
– Seu Silvinho, é para mim.

Seu Silvinho, surpreso, desceu imediatamente. Abriu a porta, a garrafa e encheu um copo de requeijão com tudo que tinha dentro daquele White Horse. Cassandra começou a desabafar. Seu Silvinho era o psicólogo mais requisitado da região. Ficou chocado. Disse que achava incrível o Juvenal arranjar uma namorada, quiçá uma amante. Cassandra concordou.

– Mas, Cassandra, você sabe que essa foi a primeira vez que o Juvenal traiu a sua irmã, certo? Porque se ele tivesse feito isso antes, vocês já saberiam. Ele é um….
– … Descuidado! Eu sempre disse que… — e, antes que pudesse completar a frase, Cassandra derrubou o copo na bancada do seu Silvinho… Um desastre, um descuido.
– Perdão, seu Silvinho.
– Imagina, menina, acontece. Vou pegar um pano.
– Deixa que eu pego, seu Silvinho. É na área de serviço, né? Eu resolvo! — disse, gentilmente.

Achou o pano e viu, de relance, uma garrafa completa de álcool 96. Achou estranho. Quem tem álcool 96 hoje em dia? Esse negócio entra em combustão! Um descuido e o bar inteiro do seu Silvinho podia incendiar. Seu Silvinho é maluco. Que horror. Esse negócio nem é permitido… Só anda com álcool 96 quem quer fazer churrasco, ou está mal intencionado… Que coisa louca.

Enquanto limpava a bancada melada do bar do seu Silvinho, Cassandra disse, ligeiramente alcoolizada.
– Seu Silvinho, ele nem merecia ficar com a minha irmã!
– Sua irmã é areia demais para o caminhãozinho dele, Cassandra. Eu concordo. Mas ele não está nem aí. Esse aí só sofre agora se perder aquela moto…
– Verdade. E aquela porcaria nem tem seguro, seu Silvinho!

Os dois riram. Cassandra deixou o pano na cozinha, se despediu do seu Silvinho e voltou para casa caminhando, de madrugada. Na altura da Frei Durão, viu a Harley do Juvenal. “Um descuido e ele ainda perde essa moto sem seguro”, pensou. E lembrou do que a Bianca disse: “pelo menos, ele ainda vai ter pagar as prestações desse anel por meses”…

***
Terça, às 10h, na cozinha.
– Cassandra, bom dia, querida!
– Como está a Bianca, tia?
– Ótima!
– Como assim ótima?
– Cassandra, nunca esqueça: o mal que a gente faz volta para a gente. Regra da vida, entendeu? Ontem à noite, a Harley Davidson do Juvenal pegou fogo na Frei Durão. Ele está chorando até agora, aquele infeliz. Longe de mim, ficar contente com a desgraça alheia, mas o safado mereceu. Ah, como mereceu!
– Mas o que aconteceu, tia? Como pegou fogo?
– Não sei, nem quero saber. O que importa, como você mesma disse, é que aquela porcaria não tem seguro!
– E o Juvenal ainda tem 22 prestações para pagar…

Às 11 da manhã, quando o seu Silvinho foi abrir o bar, deu falta de um álcool 96 e uma caixa de fósforos. Foi comprar na venda. Não lembrou de ter usado o álcool. A caixa de fósforos devia ter perdido em algum canto. Um descuido. Obviamente.

Fim.

Foto do Gadgee Fadgee

A unha do dedo indicador já estava no talo. Estava quase começando a roer o dedão quando o Adilson finalmente falou.
– Acho que vai ter que trocar a porta, dona Laura.
– Trocar a porta, Adilson? Não brinca!
– Verdade verdadeira, dona Laura. Bateu bem aqui na ventoinha esquerda da valeta da lataria inferior. Funilaria não resolve esse trem, dona Laura. Vai ter que comprar uma porta nova. E sai caro, viu. Puxa, vida, como é caro.
– Adilson, não dá para dar um jeito? Faz um martelinho aí, sei lá… Eu troco a porta mês que vem quando tiver mais grana. Não tem como?
– Dona Laura, já expliquei pra senhora no mês passado quando a senhora bateu o para-choque. Aqui nessa oficina eu não faço serviço meia-boca. Esse estabelecimento preza pela qualidade, dona Laura. Serviço porco não é com o Adilson. Aí a senhora sai por aí com o carro todo capenga e esses fofoqueiros do bairro vêm dizer que eu tô de corpo mole. Não tem jeito, dona Laura. Vai ter que trocar a porta!
– Ok, Adilson, quanto tempo o carro fica aqui?
– Faço em uma semana, dona Laura.
– Quanto sai?
– Mil e setecentos reais. Mas como a senhora é cliente antiga, tá sempre por aqui, bate o carro toda hora, eu faço um desconto. Fica mil e duzentos, dona Laura. Em três vezes. Aceita visa e cheque.

Laura não discutiu. Passou a chave para o Adilson e voltou para casa a pé. Era a terceira batida em dois meses. Tinha visto e falado com o Adilson umas oito vezes nesse período. Sabia tudo da vida do homem. Conseguia soletrar o nome dos seus sete filhos por ordem de idade: Cleidiley, Nilmerson, Juacildo, Alquindar, Ordislaine, Kellen e Maryana. Tinha o endereço da sogra, a pernambucana, Maria do Socorro, que jurava de pé junto que era tão antiga que tinha encontrado o Virgulino, o próprio, o único, o Lampião. Ouviu essa história umas dez vezes só na última semana. Provou o doce de leite da Duda, mulher do Adilson, umas três vezes no último mês. Divino. Engordou três quilos só de desejo.

Adilson também sabia tudo da Laura. Conhecia o coronel Torres, seu avô, a dona Nicéia, sua avó, e o tenente Claudio e a Valquíria, seus pais. Funileiro de bairro. De confiança. Podia relatar todas as batidas e raladas de cada morador da rua dos Sorocabanos a Gentil de Moura. Uma loucura esse Adilson! Quanta memória! Quanta informação! E Adilson sabia o porquê de tanta barbeiragem no trânsito nos últimos tempos. Laura não era assim sempre. O problema da moça era paixão. Quando encasquetava com um rapaz, não existia sinal vermelho, placa de PARE, faixa de pedestre, poste ou muro que a segurasse. Era acidente na certa. Um atrás do outro. Moça louca e desvairava, pensava. Que coisa doida esse negócio de paixão. Deus nos livre! “Essa história de hormônio pode levar a morte, dona Laura”, avisou quando a moça enfiou o carro embaixo de um ônibus numa segunda de manhã.

O algoz da vez atendia pelo nome de Danilo. Era o novo padeiro da “Quentinho e gostosinho”, a padaria mais chique do bairro. Danilo era bem o tipo de Laura. Forte, mas não muito forte. Alto, mas não muito alto. Bonito, mas não muito bonito. Inteligente, mas não muito inteligente. Jovem, mas não muito jovem. Tudo na medida. E tinha um belo par de olhos azuis generosos, uma perdição. E fazia pão. E sorria. E era gentil, cavalheiro, lindo. Laura nunca comeu tanto pão e com tanto gosto. Só de pensar que Danilo amassava aquelas broas com as próprias mãos… Enlouquecia. Quando ela imaginava ele gargalhando com aquele chapéu de confeiteiro e farinha por toda a parte naquela cozinha industrial, o mundo inteiro desaparecia. E batia o carro. Trocava o para-choque, a porta do motorista, o vidro do passageiro. Gastava um dinheiro que fazia falta. Sua avó que tinha razão: paixão acaba com a direção, o foco, a lucidez, a conta bancária. Um sentimento do demônio, como dizia a tia Mirtes, solteirona, inteiraça, lúcida, 90 anos. Era preciso dar um basta. Chega. Ia se declarar.

Planejou o discurso numa madrugada de quarta. Andava de um lado para o outro, articulando tarde da noite. Bateu o dedinho três vezes na quina mesa, arranhou o braço no abajur, tropeçou no vaso de areca da mãe, escorregou no tapete. De tanto pensar no Danilo. Ficava boba, distraída, desastrada. Paixão é um negócio dos infernos. Não dormiu e, às cinco e meia da manhã, saiu de casa para pegar o Danilo chegando na padoca, digo, na casa de pães. Entrou que nem um foguete, cumprimentou o seu Gomes e foi até a cozinha sem pedir licença. Quando viu Danilo, tudo esmaeceu, mas ela não se deixou abater. Antes que o rapaz dissesse “bom dia”, desembestou a falar.

– Danilo, eu sou louca por você. E nem é porque você é bonito, não. Até porque você nem é tão bonito assim. E nem é porque você é padeiro, porque padeiro nem é a profissão mais legal do mundo também. Sou louca por você por causa desse olhos azuis, Danilo. Me perco nesses olhos, cara, eles são lindos! Danilo, eu quero te beijar na chuva, no meio da rua, com o sinal aberto. Danilo, eu bati o meu carro três vezes por sua causa. Quando eu penso na sua cara, Danilo, eu não vejo a cor do semáforo, a preferencial, a mão da rua. Danilo, eu preciso parar de bater o carro. Eu tô gastando muito dinheiro na oficina do Adilson e ele nem é um funileiro tão bom assim. Danilo, eu nunca comi tanto pão na minha vida! E eu nem gosto de pão francês, sou bem mais pão de forma! Danilo, quando você sorri, eu me derreto toda. Eu me sinto na praia de Copacabana em 31 de dezembro. É fogo de artifício saindo pela boca, Danilo. Eu adoro falar o seu nome, Danilo. É tipo poesia para mim. Eu sei que tem umas vinte e cinco mil garotas te querendo, e elas são todas lindas. Mas eu acho que você deveria ficar comigo, Danilo. Eu gosto tanto de você. Eu posso te fazer tão feliz. A gente pode ir no cinema ver um desses filmes de ET que você gosta tanto e comer pipoca e rir e eu posso encostar a minha cabeça no seu ombro e você pode pegar na minha mão e a gente…

Danilo a interrompeu.

– Laura, você é incrível! Não existe garota como você! Cara, você é muito corajosa e linda. E eu te adoro. Mas ontem eu pedi Estefany, filha da dona Lurdinha, em namoro. Não tô mais solteiro, Laura. Eu tô apaixonado por ela. Há uns meses já. Me desculpa… Eu te adoro, Laura. Você vai fazer um cara muito feliz ainda. E vocês vão poder se beijar na chuva no meio da rua com o sinal aberto. E nós dois podemos ser amigos!

Laura, branca e em choque, respirou fundo e disse.

– A Estefany? Sério? Gente… Nós dois? Amigos? Danilo, amizade? Amizade é uma merda!

E correu para a porta. Mas foi freada por uma mesa lateral onde descansava uma montanha de sonhos quentinhos — que se espalharam por todo o chão da cozinha enquanto o restante da equipe chegava como uma manada de elefantes para mais um dia de expediente. O auxiliar tentou alcançá-los antes de serem pisoteados por todos. Em vão. Os sonhos não tiveram nem chance. O chão ficou todo melecado de creme branco, credo. Um desperdício. Uma pena. Uma tristeza. Não era dia de sonho. Definitivamente.

Laura passou a tarde em branco, em alfa, em um mundo paralelo. Foi para um bar com as amigas tentar esquecer tudo. Todo o coração partido. Toda a decepção. Encheu a cara de vinho com raiva da Estefany, aquela patricinha. Enfiou o carro num poste, voltando para casa.

***

– Dona Laura, dessa vez, a senhora teve sorte. Nem precisa trocar nada. Dá para resolver com funilaria.
– Graças a Deus, Adilson.
– É paixão ainda, dona Laura?
– Não, Adilson, foi vinho. Dessa vez, foi vinho.
– Vinho é a melhor coisa do mundo, dona Laura.
– Você acha? Eu achava que paixão era bem melhor.
– Que nada! Vinho causa bem menos estrago. Bem menos!

Fim.

Jason Bache

Amélia não acreditava em astrologia, nem em lobisomem – mas morria de medo da lua cheia. Mantinha uma folhinha com calendário lunar atrás da porta da cozinha. Só para não ser pega de surpresa. É que lua cheia mexia com Oswaldo. E ela sabia disso. Sempre soube. Os dois se conheceram numa festa junina, dia de Santo Antônio, noite de lua cheia. Oswaldo a pediu em casamento numa sexta-feira de primavera, noite de lua cheia. Casaram-se numa terça de janeiro, noite de lua cheia. Amélia engravidou de Oswaldinho numa quarta, noite de lua cheia. Amélia pegou Oswaldo com Mirtes, a vizinha do 301, numa quinta, noite de lua cheia. Amélia descobriu que Oswaldo estava tendo um caso com a Rita, a gostosona do escritório, numa segunda, noite de lua cheia. A lua cheia era um problema para Oswaldo: atiçava o homem, deixava os hormônios lá em cima. E mudava a vida de Amélia.

Amélia passou a frequentar o boteco do bairro por causa da lua cheia. Isso foi depois que Oswaldo confessou estar saindo com a Val, caixa da quitanda. Os dois se conheceram no bar do Almeida. Quando a Amélia soube, decidiu que o marido nunca mais beberia sem ela. Amélia odiava álcool, não gostava nem de keep cooler. Mas passou a beber uísque puro e cachaça no gargalo para evitar uma tragédia. E dizia para o Oswaldo: “Pare de me trair ou quem vai te trair sou eu. Eu posso fazer o meu próprio pacto com o diabo, Oswaldo, e quando isso acontecer você vai descobrir o quanto o inferno pode ser gelado”.

Amélia, que não tinha a menor vaidade, passou a usar batom vermelho, saia curta, decote, perfume importado. Tudo para chamar a atenção no bar do Almeida. Nem assim Oswaldo conseguiu se controlar. Amélia continuava culpando a lua cheia. O Almeida, dono do bar, gostava da Amélia. Achava que ela era de deixar o queixo caído. Dizia por aí que Amélia é que era mulher de verdade. Para ter a moça sempre perto do seu balcão, Almeida aposentou a jukebox e contratou o Nestor, um violonista vesgo que fazia frila de sanfoneiro no forró do seu Judas duas ruas para cima. Nestor não cantava nada, mas Almeida sabia que a Amélia tinha uma voz de veludo e chamou a moça para subir no palco improvisado toda sexta. E foi numa sexta, de julho, com ela no palco que o Oswaldo conheceu a Kelly, secretária do doutor Santana, o ortopedista da rua do Grito. Era noite de lua cheia.

Kelly ficou tão louca por Oswaldo que decidiu ir até a casa da Amélia no sábado à noite avisar que o homem agora era dela.
– Queridinha, mulheres, como você, o Oswaldo encontra em qualquer esquina. Para ele ficar com você, eu tenho que sair da frente e isso eu não faço por nada. Você não é mulher suficiente para ele.

Oswaldo dispensou Kelly na segunda-feira de manhã. A moça, em choque, foi se consolar nos braços do doutor Santana. Naquela noite, Amélia explicou para o Almeida: “Homem está sempre de olho naquilo que não precisa”.

Os dias passavam na maior tranquilidade até Oswaldo conhecer a Renatinha, personal trainer da dona Lourdes do 402. A moça tinha a bunda dura que nem uma rocha. Não demorou muito para Amélia descobrir. Mas, dessa vez, Oswaldo se surpreendeu. Ao flagrar os dois aos beijos no quarto de empregada, Amélia quebrou tudo: todos os pratos da cozinha, todos os enfeites da sala, toda a coleção de porcelana da sogra, todas as estátuas de pedra sabão que a tia de Oswaldo trouxe de Minas. Amélia quebrou tudo mesmo, puxou Renatinha pelos cabelos e tentou afogá-la na água da privada. Dava descarga ininterruptamente até Oswaldo conseguir frear a esposa e liberar a amante, que saiu correndo como um foguete pela porta da sala. Amélia partiu então para cima de Oswaldo: rasgou a camisa, enfiou as unhas nas costas, estapeou a cara dele trinta vezes, chutou o peito, os braços, as pernas, gritava feito uma louca. Ele recebeu a agressão sem reagir. Merecia. Sabia. Ela correu para o elevador. Ele ficou prostrado no sofá da sala. Amélia desceu para a garagem, enterrou a chave do carro em toda a lateral da pick-up novinha do Oswaldo. Quebrou todos os vidros com um pé de cabra. Furou todos os pneus do carro. Esculpiu com uma faca a palavra TRAIDOR no banco de trás. Voltou feito louca. Mandou Oswaldo pegar as coisas e ir embora: “Infidelidade não dá para perdoar, Oswaldo”. Sem entender nada, Oswaldo foi até a garagem. Viu o estrago. Precisou chamar um táxi. Amélia era sempre tão misericordiosa, uma mulher de verdade. O que é aconteceu dessa vez?

Amélia sentou na mesa da cozinha, encheu o copo de 51 e ligou o rádio. Chorou pela primeira vez em anos. Tocava um samba deprê da Beth Carvalho. Ela saiu na varanda com o copo. Precisava respirar. Olhou para o céu, com as lágrimas arrebentando nas pálpebras. Era noite de lua nova. Imperdoável, Oswaldo. Em noite de lua nova é simplesmente imperdoável.

Foto de Jason Bache.

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Caras, como você, adoram distribuir cavalheirismos para garotas, como eu. Dizem que nós somos lindas, nos dão carona até em casa, nos acompanham até o carro, nos ajudam a colocar o casaco, tocam nos nossos cabelos, tiram sujeira dos nossos rostos, conversam conosco perto demais, nos observam por tempo indeterminado, sorriem sempre ao nosso lado. Caras, como você, insistem que garotas, como eu, são incríveis e merecem o melhor do mundo. Caras, como você, costumam chamar garotas, como eu, de amigas, e imputam todo e qualquer romantismo a essa amizade, repleta de gentilezas. Garotas, como eu, ficam confusas e não sabem o que responder quando amigos, como os nossos, questionam a validade desta amizade. Caras, como você, agem com indiferença aos boatos.

Caras, como você, morrem de medo que a relação com garotas, como eu, seja mais do que um flerte sem veredicto. Caras, como você, acham que garotas, como eu, dão muito trabalho. Garotas, como eu, esperam desiludidas que caras, como você, tomem uma decisão, uma iniciativa, uma atitude. Aguardamos na mais profunda solidão, mentimos para nós mesmas, somos ingênuas, nos decepcionamos. Garotas, como eu, concluem que caras, como você, não devem estar tão interessados assim. E desistimos. Não sem antes perder o rumo, se embebedar de vinho e se vingar puxando papo com o moço mais bonito da festa – muito mais bonito do que você. Garotas, como eu, são a companhia perfeita para homens lindos e inteligentes, como ele. Garotas, como eu, precisam de homens, como ele, para esquecer caras, como você.

Caras, como você, acabam se declarando para garotas, como eu, somente sob efeito etílico. Garotas, como eu, não se esquecem disso. Nós nos lembramos muito bem. Caras, como você, fingem amnésia. Nos evitam, somem, voltam a nos tratar como amigas. Garotas, como eu, desistem. Desistimos. De novo. Essa falta de atitude mata.

Caras, como você, conhecem outras garotas pela internet, se apaixonam perdidamente em dois dias e mudam o status do facebook em uma semana. Caras, como você, permanecem teoricamente felizes até que se lembram que existem garotas, como eu.  E rompem. E nos ligam. E nos acompanham até o metrô. E nos elogiam. E nos observam exaustivamente. Morrem de medo da gente. Não tomam qualquer atitude. Cansamos. Desistimos. Mais uma vez. Re-pe-ti-da-men-te. E suspiramos, exaustas. Caras, como você, nunca conseguem se apaixonar de fato por garotas, como eu. Caras, como você, não foram feitos para garotas, como eu. Caras, como você, e garotas, como eu, nunca, nunca, nunca vão dar certo. Fim.

Foto de Maxwell GS.

Perco o ar lendo o blog que ele alimenta de dois em dois meses. Deixo a leitura acumular e dou uma olhada poucas vezes ao ano só para poder sentir taquicardia. Gosto do jeito que ele escreve, do bom uso de vírgulas, das hipérboles, das metonímias precisas. Sinto borboletas no estômago com cada catacrese bem empregada. Suspiro com a nossa troca ocasional de e-mails. Vivo pelas suas sugestões de livros e referências de filmes. Faço questão de convidá-lo para eventos em que ele não pode comparecer. De propósito. Ninguém recusa convites tão bem quanto ele. Amo secretamente as suas desculpas cheias de coesão literária. Ele é intelectualmente apaixonante. Gosto muito dele pessoalmente. Mas já gostei mais; e podia ter gostado ainda mais, não fosse ele tão inesquecível por correspondência. Por causa dele, não consigo flertar a distância com mais ninguém. É como tomar uma taça de vinho depois de três doses de uísque: não faz efeito. É isso mesmo, meu querido: todos eles são infinitamente entediantes quando comparados a ti, maldito bom conhecedor da língua portuguesa!

Ela não entendia aquela cena do helicóptero. Assistiu milhares de vezes para ver se aquilo fazia algum sentido. Pausava, voltava o filme. O que será que ele quer dizer com isso? Dizem que tudo gira em torno da falta de comunicação. Essa é a temática do Fellini nesse filme. Mastroianni quer o telefone, o barulho do helicóptero é muito alto, ninguém se comunica. Ninguém se escuta. Ninguém se entende. Repetidamente. Ele gostava do Fellini. Ela passou a gostar. Talvez mais do que ele. Gostou tanto que passou a amar aquele final – quando a moça fala e ele não escuta. O barulho das ondas é alto demais. Ninguém se entende. Ah, que filme! É a amarração perfeita, é emocionante, sabe? Mas ele não estava nem aí para o que ela achava. Até se irritava quando ela falava com paixão sobre o Fellini, como se ela tivesse tomando posse de algo que fosse exclusivamente seu. E não era só isso: ela leu todos os livros que ele indicou. De Hegel a Woody Allen. Tudo. Aquilo incomodava. Ele gostava de mocinhas inteligentes, mas não era para tanto. Era intelectualidade demais para o gosto dele. Por que ela não podia se preocupar em ser só bonita, como todas as outras garotas? Eles não duraram muito. E ela começou a sair com um maratonista. Decidiu começar a correr. Em dois meses, conseguiu correr cinco quilômetros. Excelente para uma iniciante, ele disse. Passou a se alimentar melhor, a se vestir com mais elegância. É que a ex dele era modelo. A insegurança a deixou linda, quase uma artista de cinema. Ainda lia nas horas vagas, ainda gostava do Fellini. A única diferença é que agora ela era bonita demais. Tão bonita que o maratonista passou a ter um ciúme descomunal. Ficou louco. Começou a atormentá-la. Ela não agüentava mais. Era preciso dar um basta. Chega. Acabou. Não durou muito também. E ela ficou sozinha tentando entender como nenhum dos dois nunca percebeu que ela só queria ser boa o suficiente. Falha de comunicação. Como em La dolce vita

Hoje, ela vai assistir outro filme do Fellini. Noites de Cabíria. É que ela está se sentindo meio Cabíria (tirando a parte da prostituição, é claro). Tudo o que ela quer é chegar àquela cena final. Porque ela sabe que não existe nada tão poético quanto aquele fim. Nada tão sublime. Porque a vida continua. É tudo o que aquela cena diz: a vida sempre continua…

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