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felicidade

Nos Pirineus, as janelas das casas são incríveis: antiquíssimas, de madeira e até separatistas — uma ou outra está sempre bradando pela Catalunya livre ao exibir com orgulho a bandeira catalã pró-independência, aquela com a estrela. As senhorinhas e os senhorzinhos, de povoados franceses na fronteira com a Espanha, têm seus nomes gravados nos bancos da Igreja, o que garante o lugar fixo nas missas. Os pôneis cavalgam tranqüilos pelas montanhas. Sim, eu disse pôneis. Muitos pôneis. Nunca vi tantos pôneis. Quem diria? Nos Pirineus, há pôneis. Não digam que eu não avisei.

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As fotos são minhas.

 

A garoa estava finíssima, nem precisava de guarda-chuva. Mas os dois abriram um meio transparente, com detalhes em amarelo, e caminhavam juntinhos sabe-se lá para onde. Ela vestia uma camiseta listrada em branco e preto e uma calça pula-brejo, que reforçava ainda mais a sua altura. Ele tinha uma barriguinha saliente, dessas de chope, e sofria de calvície. Ali na calçada da rua Huet Bacelar, ele colocou as mãos sobre os cabelos escuros dela e a beijou. No meio da garoa, bem rapidinho. Ela, pega de surpresa, retribuiu e olhou para baixo. Eles são perfeitos, pensei. Os dois nem me notaram e eu fui embora torcendo para ele continuar ficando careca e para ela sempre ter mau gosto para se vestir. Amor de verdade é assim.

A foto é do Denis Defreyne

Eu desembarquei na Ilha de Capri, sul da Itália, por volta do meio dia num domingo, 24 de junho, dia de São João Batista. Eu tinha acordado às quatro horas da manhã em Roma. Passei horas dentro de um ônibus desconfortável com meus pais e meu irmão a caminho de Pompéia, região da Campania. Visitamos o sítio arqueológico na primeira hora da manhã (isso é tema para outro texto) e partimos para o porto de Nápoles, onde embarcaríamos finalmente para Capri em uma espécie de catamarã de alta velocidade. Uma hora mais tarde, estávamos todos na minúscula marina da ilha. O mar era azul marinho, como só o Mediterrâneo sabe ser. As casas branquinhas eram perfeitas até nas suas infiltrações, bolhas e pinturas mal tratadas pela maresia. Capri, como Nápoles, exibe as roupas dos seus moradores em varais extensos pelas janelas. Era um cenário de sonhos e eu achei que viveria um dia incrivelmente feliz – se sobrevivesse ao cansaço e às altas temperaturas.

Capri fervia a quarenta graus nesse dia. Pegamos um micro-ônibus para subir a montanha e conhecer Annacapri (que significa “acima de Capri”, em grego), a cidadezinha com a vista mais deslumbrante de todos os tempos. Fomos almoçar. Macarrão, carne de porco, suco de limão e eu começo a chorar copiosamente sob a refeição. “Eu quero tanto viver este dia, quero tanto ser feliz hoje. Esse lugar é lindo, talvez eu não volte aqui nunca mais… mas eu estou tão cansada, tão cansada que eu não sei se vou ser feliz hoje, sabe?”. Minha mãe, que sabe reconhecer uma moça no auge da TPM, colocou as mãos sobre os meus ombros e me disse que tudo ficaria bem. Meu pai não entendeu nada. Eu não conseguia parar de chorar. Capri é talvez o lugar mais incrível que eu já vi, mas eu estava tão cansada que eu não sabia se conseguiria aproveitar. Hormônios. E chorei. Chorei. Chorei. Chorei. Saindo do restaurante, procuramos o mirante para ver Sorrento e a costa Amalfitana, as duas outras divas italianas. Paisagem de sonho. Dia perfeito. Lágrimas. Lágrimas. Lágrimas. Eu quero tanto não deixar esse dia morrer. Eu quero ser feliz hoje. Dentro do micro-ônibus de volta à praia, um dominicano animadíssimo começou a cantar “Ai, se eu te pego” do meu lado. O motorista italiano, que conduzia displicentemente pelas curvas estreitíssimas da ilha, resolveu nos apresentar seu repertório e colocou a música de Teló em bom português no mais alto volume. Todos os passageiros do micro-ônibus começaram a dançar desastradamente. Foi quando eu soube que não era dia de drama.

Na marina, pegamos uma pequena lancha para dar a volta na ilha e ver o famoso cartão postal de Capri: as duas pedras que se levantam do mar Tirreno como verdadeiros titãs. O condutor da embarcação era um italiano careca, bronzeado, chamado Massimo – tinha que ser. Quando entramos na gruta verde com a lancha, Massimo foi pró-ativo. “Senza gli occhiali, Signori! Senza gli occhiali, per favore, Signori”. Até os mais teimosos atenderam a súplica de Massimo e os óculos de sol saíram dos nossos rostos, que agora contemplavam o teto da gruta verde que parecia um céu estrelado, colorido, brilhante, como fogos de artifícios. Incrível, perfeito, emblemático. De vez em quando, eu penso nessa imagem assim do nada, no meio do dia, só para garantir que eu não vou me esquecer dessas cores nunca mais. Senza gli occhiali, Massimo, grazie. E eu, que já não chorava há mais de uma hora, tentei me conter. Só que as lágrimas já arrebentavam na minha pálpebra inferior. As gaivotas lindas e branquinhas faziam um V no céu enquanto voavam. Seguindo o rastro delas, eu vi aquelas pedras imensas, lindas, incríveis, mágicas. Eu não podia mais me conter. Chorei de novo. De felicidade. De amor. De admiração. De vontade de ficar ali para sempre vendo as pedras, as gaivotas e o azul do mar Tirreno. Ah, como eu me apaixonei pelo Tirreno! Eu devia ter ficado ali para sempre. Para sempre! Como aquelas gaivotas. Eu estava chorando de novo, tão feliz, tão emocionada. Era disso que eu estava falando. Era isso que eu queria viver ali. Aquela emoção, aquela felicidade. Nessa hora, eu sabia que o cansaço era o que menos importava. Eu vivi aquele dia do jeito que eu queria viver. Eu não queria descer daquele barco. O problema é que as minhas histórias de amor sempre chegam ao fim. Antes de perceber, eu via Capri da popa do catamarã. De longe, eu observei aquela ilha que guarda o sentimento de completude mais intenso que eu já vivi…

As lágrimas de felicidade ainda me visitaram no caminho de volta para Roma naquela noite. E eu comecei a rir, enquanto chorava, de tão ridículo que foi passar o dia em lágrimas no meio do Mediterrâneo, com quarenta graus de temperatura. Nada foi ameno naquele domingo. Nada. Eu quero voltar para Capri um dia. Quero voltar sorrindo. Mentira, eu quero chorar de novo. Quero ser ridícula de tanta felicidade, de tantos hormônios, de tantas emoções. Eu quero viver uma tempestade de sentimentos. Quero cair em lágrimas de nostalgia. Não tem graça viver com medo da felicidade. Quero chorar sempre. Quero viver Capri de novo, em vários lugares do mundo, se possível. Sempre senza gli occhiali, como eu aprendi com o Massimo.

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