Por que eu gosto de bolero

Para o meu querido avô Getúlio, o dono do olhar mais generoso do mundo.

Quando o relógio deu oito horas em ponto, eu comecei a chorar copiosamente – sem nem saber que naquele exato minuto, a sua barca partia. Nos reunimos em torno da sua cama, como tantas vezes fizemos ao redor da sua poltrona. E choramos ao invés de rir, como era de costume. O choro nos calou, como nunca fizemos perto de você – apesar de tantos pedidos para a gente falar mais baixo. Aquele silêncio era a sua ausência. E eu preferia ter ouvido um bolero, vô.

Naquele noite, eu dormi na sua casa. Te vi em todos os lugares: nas fotos do corredor, nos porta-retratos, no seu banheiro, em todos os cantos da sala, no seu pente em cima da mesa de centro, no seu colírio do lado do telefone, no seu remédio na bancada da cozinha, no seu jornal em cima do lixo. Te vi dentro da geladeira quando eu fui pegar uma água, te vi no seu iogurte preferido, na sua margarina com ômega 3, no seu leite de soja, na sua bolacha diet. Te via em todo aquele silêncio. Te via em toda aquela ausência. Mas eu preferia ter ouvido um bolero, sabe?

Quando os seus amigos vieram se despedir de você, eu te vi em todos eles. Te vi nas suas piadas, nas suas festas, nos seus sorrisos, nos seus olhos azuis acinzentados e generosos– porque, depois dos 80 anos com Parkinson, a gente não economiza sentimento. Te vi na tia Lucy, na Sônia e na Lili. Te vi na sua irmã. Te vi no Neto, no Gustavo, no Guilherme, no Gabriel, no Fernando. Te vi na vó. Te vi no meu pai, no Getulinho, na tia Marilena. Te vi na minha mãe, na Beth, no tio Antônio Carlos. Te vi em todo lugar, em todo o silêncio. Te vi onde não te escutava, onde eu não te ouvia. Mas preferia ter ouvido um bolero, vô, você sabe.

Hoje, eu decidi ouvir um bolero. Aquele que fala da barca que tem que partir; aquele que fala sobre despedidas, sobre a distância, sobre as saudades. Aquele que você me ensinou, lembra? O seu bolero preferido. O meu preferido. O nosso bolero, vô. Vou ouvir o nosso bolero hoje e sempre que eu pensar em você. Acho que eu vou ouvir esse bolero todos os dias da minha vida, vô. Tudo bem por você?

Paris, aos (quase) 30

place-vendome

O seu nome ecoa na minha cabeça enquanto eu te espero no lobby do hotel Metropol. Está frio em Paris, cinco graus. Não era para estar tão frio. Eu visto um casaco pesado por cima de um vestido preto com decote em V e manga comprida. Eu uso o cabelo da Veronica Lake. Você aparece de calça jeans, camiseta e blazer. Você está com um cachecol xadrez e uma boina idiota que você comprou em uma ladeira de Mont Martre.

Nós descemos a Rue de Maubeuge de braços dados tarde da noite. A gente passa pelo café em que eu aprendi a pronunciar eau, água. O supermercado Champion já está fechado. Nostalgia. A gente caminha na Maubeuge até chegar na rue La Fayette. A gente passa pela galeria e vê a Ópera Garnier pelos fundos. Você não acha a menor graça nisso. Eu adoro descobrir o prédio pelo lado errado. Eu gosto tanto dessa Ópera. Você sabe disso. Você me puxa pela mão e me leva até os degraus da entrada. É quase um tapete vermelho. Meu coração acelera. Eu sou Maria Callas em noite de estreia. Nós dois rimos do meu devaneio. Isso é ridículo. Podia ser noite de ópera. Podia. E saímos gargalhando juntos pela rue de la Paix.

Quando nos damos conta, já estamos na Place Vendôme. Está frio. Eu tiro o meu casaco e jogo na calçada. Ele não vale nada aqui na frente da Dior. Eu danço por nós dois. Você não hesita. Você dança junto. Assim sem música mesmo. Você toca guitarra imaginária, eu toco violão. Eu danço MPB. Você dança rock progressivo.

Eu começo a gargalhar da nossa falta de ritmo. Os seguranças franceses do Ritz viram os olhos para nós dois. Turistas. Você ri comigo, tira o seu cachecol, coloca ele no meu pescoço, me pega pela cintura e encosta a sua testa na minha. Você está tão perto que fica fora de foco. A gente dança um bolero. Eu imagino No me platiques mas; você acha que é Besame mucho. Eu canto com o meu espanhol capenga. Não tem nada de parisiense nisso. Nós dois somos ridículos. Um casal passa de bicicleta em direção a rue de Castiglione e ri da nossa criancice. E eu vou fazer trinta anos, acredita? Quase 30. Falta pouco para eu chegar lá. Não falta nada para você. Mas hoje nós temos quinze, como eu tinha quando estive aqui pela primeira vez. Eu e você. A mesma idade. Só por hoje. Sua boina idiota cai no chão enquanto você me rodopia perto do Obelisco. Eu sorrio. Você me tomba para a direita. Olho no olho. Eu faço tudo o que você disser. Você devia se casar comigo. O que é que a gente está esperando? Sua boca chega a meio centímetro da minha. Meus lábios te esperam. Você sorri. Meu despertador toca.

Eu acordo com os lábios em febre. Levanto de pijamas e vou até a cozinha tomar um copo d’água. Nós não estamos mais em Paris. Eu estou sozinha. Você ficou no I arrondissement. São seis e doze. Voltei a ter 25 anos. Quando a água cair no estômago, vai ser só terça-feira. Vai ter trânsito. Vai ter reunião às três da tarde. E eu só vou me lembrar que eu sonhei de novo com Paris, com aquele hotel, com a rue de Maubeuge. Como sempre. Eu já não me lembro mais de você, de nós dois. A vida é cruel. O cotidiano esmaga os nossos sonhos. A realidade é estreita. Às dez da manhã no elevador da firma, eu aperto o quinto andar e eu já não me lembro de mais nada. Engraçado sonhar com Paris. Lábios ardendo. Por que será? Que coisa louca! Opa, é o meu andar…

foto de jean louis zimmermann. 

A casa dos vizinhos

Para Marly, Tooge, Karina e Rodrigo.

Eles pintaram o forro de madeira de branco. Ela me contou quando veio nos visitar, trouxe doces, disse que quer ser amiga dos vizinhos, que a gente precisa ver como a reforma ficou. A casa mudou tanto, ela disse. Eu não sei se eu quero ver. Não sei se me acostumo com o forro branco. Ele nunca foi branco. Não combina. Eles colocaram uma grade perto da piscina, trocaram a cor da fachada. Eles querem desmontar a churrasqueira e construí-la do zero em outro lugar da casa, talvez perto da piscina. Eu queria dizer que o lugar onde ela está é ótimo. Vocês tiravam os carros, montavam mesas na garagem e a gente se divertia comendo, bebendo e brincando com as crianças e os cachorros. Está perto da cozinha, fica fácil trazer e levar as bebidas. Eu queria que eles entendessem.

Às vezes, eu fico pensando naquela saleta sem o piano. Deve estar tão estranho. E eu fico me lembrando de quando eu tinha 7 ou 8 anos de idade e sentava com vocês do lado do aparelho de som para ouvir Equilíbrio Distante, do Renato Russo. Lembra? Eu sempre quis entender aquelas letras, achava que aquela língua tinha muitos i’s. Acho que foi por isso que anos mais tarde eu me matriculei no curso de italiano. Deve ter sido.

Eu fico curiosa para saber se aquela infiltração no porão foi resolvida. A gente assistiu tantos filmes juntos, deitados no chão. E vocês, às vezes, jogavam videogame também. Lembra quando a dona Neide pisou no cabo e resetou a fita que vocês ficaram dias jogando?

Outro dia, eu ouvi uma amiga deles dizendo que aquela planta no vaso da varanda era linda. A vizinha respondeu que a planta veio com a casa. E eu fiquei pensando que aquela árvore testemunhou todos os nossos jogos de carta, as nossas trapaças, os nossos trucos. Ela ficava ali do lado da mesa de ferro. O que será que aconteceu com aquela mesa?

Os novos vizinhos têm crianças. São dois meninos. Eu, às vezes, os vejo pelas frestas do muro. Eles são mais novos do que nós éramos. Eles correm pelo jardim e nem sabem que existem calangos embaixo da grama. Quantas vezes esses calangos não caíram dentro da piscina? Eles ainda não sabem que isso acontece.

Falando em frestas, eu sinto falta daquela abertura no muro que fazia com que as nossas duas casas se comunicassem. Eles nem sabem que essa abertura existiu. Eles também não sabem que o chão do corredor externo é pintado de verde porque a gente jogava bola ali. É tão estranho. Às vezes, eu acho que sou mais dona daquela casa do que eles. É que ela guarda tantas memórias minhas que eu acho injusto ter que me fazer de indiferente. A gente viveu tantas coisas juntos: aniversários, dias de preguiça na piscina, ralados de bicicleta na entrada do carro, festas de fim de ano. Essa casa faz parte da minha infância. Eu não estava lá quando vocês receberam o caminhão de mudança. Ainda assim eu chorei quando vi que vocês não voltariam mais. Eu sinto saudades de vocês. Eu sinto saudades de nós, de mim, daquela época que a gente viveu. Eu sei que foi a melhor coisa a ser feita. Eu concordo com vocês, vocês tinham razão. Eu sei que eu não deveria me sentir assim, que tudo isso é bobagem, que já foi o nosso tempo, que a gente deveria só olhar para frente e deixar o passado no passado. Mas eu sinto essa dificuldade de crescer quando eu me lembro que nós fomos tão felizes. Eu não consigo aceitar menos felicidade. Tinha que ser para sempre daquele jeito. Para sempre. Às vezes, eu acho que se nós conseguíssemos viver pelo menos um dia de novo todos nós juntos, saudáveis, felizes, toda essa angústia iria embora. Mas eu sei que o tempo não volta mais, nunca mais. Eu sei que eu preciso me acostumar com isso. Eu sei. As coisas mudam, eu preciso aceitar. Eu vou aceitar.

A única coisa que eu posso fazer agora é rezar para que as crianças descubram que os calangos caem na piscina. Porque eles caem, elas precisam saber disso.

Cínico

Que o antônimo de esperançoso é cínico dicionário nenhum te conta. O cinismo, esse sentimento dos infernos, chega de uma maneira sorrateira, num sorriso descarado ou num olhar esnobe. Que o cinismo é o destino de muitos sonhadores, isso também livro de auto-ajuda nenhum te conta. Talvez uma música da Joni Mitchell esclareça a questão. Mas só se for você for cínico o suficiente para prestar atenção.