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Ofegante

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Há uma censura involuntária no ar quando o atleta lesionado aparece na porta da sala de pilates numa manhã fria de junho. No momento em que aquele homem grande e acima do peso pega seu colchonete, todas as mulheres parecem adentrar numa bolha de silêncio sob suas bolas, pesinhos e elásticos. Trocar receitas de pé de moleque ou contar piadas sobre como os homens devem obedecer calados dentro de casa (coisas que fazemos com frequência nas terças e quintas cedinho) não parece de bom tom diante dos gemidos e das lamúrias de um homem que diz ter descoberto a finitude do próprio corpo. Há algo de fúnebre num atleta lesionado. É como se seu próprio corpo, hoje disforme, velasse o futuro e virasse ele mesmo um caixão de quem um dia já foi. Não há sofrimento igual ao de um atleta lesionado. E as mulheres — acreditem! — têm dificuldade em lidar com homens sofridos. É um desconforto.

Levar as mãos até as pontas dos pés, para o atleta lesionado, é um desafio. Dói. Dói tanto que ele geme. Geme alto. Tão alto que marcamos o tempo do exercício pelos seus gemidos. E sussuramos o nome da sua lesão pela sala. Há quem diga que é uma hérnia de disco com um nervo prensado na vértebra 14. Há quem acredite que o problema é no quadril. Outras dizem que o negócio mesmo é o ombro. Mas não é a escápula? Eu vi ele tendo dificuldade naquele da escápula! Ninguém sabe ao certo. Quando ele menciona o quanto estes últimos meses o fazem sentir o peso da sua idade, alguém diz: “temos que respeitar o nosso corpo, não tem jeito mesmo”. E mais uma série de clichês. Outras tentam consolá-lo dizendo que sim, ele vai sair dessa. Ele precisa. Ele não faz parte disso aqui. Dessa aula. Desse alongamento. Dessa trilha sonora. Desses papos de terça e quinta cedinho. Ele precisa sair dessa.

Quando o silêncio parece incontrolável, a mais abusada decide tentar um tema novo. Fala da Dilma. Da corrupção, do PT. Mas ninguém aqui gosta de falar disso. A gente vem no Pilates para falar mal do marido (ainda que não tenhamos um) e rir das paranóias femininas. E trocar receitas. E falar de decoração. E da aula de Jump. Dos jardins do museu. E da coreografia de zumba.

Nenhuma mulher retruca. Deixa estar. Esquece a Dilma. Mas o atleta lesionado quer fazer amizade, se enturmar. E, do fundo da sua amargura, dispara comentários sanguinolentos contra o PT. A gente não gosta do PT, amigo, mas a gente é meio de esquerda. Alguém avisa que a gente é meio de esquerda? Só que o atleta lesionado é quase reaça. E menciona a ditadura. Vai ter Copa. Não vai ter Copa. Esse país é uma vergonha. Uma vergonha desde Fernando Collor. Dai-me paciência, Senhor. Respiramos fundo.

Enquanto isso, ao lado da pilha de colchonetes, a Lourdes diz para a Fátima: “te mando aquela receita de bolo de fubá pelo face depois, amiga”. A Fátima agradece baixinho. As duas olham, com pesar, pena e dó para aquele moço machucado. Se soubesse o nome dele, a Cida, de 77 anos, colocaria em intenção na missa no domingo. Pobrezinho. Esse cara precisa sair dessa. Oremos. Me retiro. Calada. E lamento, sem considerar jamais dizer isso em voz alta: “Que triste! Machucado e ainda votou no PSDB”. É muita depressão. Misericórdia, Senhor. Misericórdia.

 

Foto de khatawat

 

 

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É para acabar com a quarta-feira. Não são nem oito horas da manhã e a Janete está lá fazendo agachamentos e chutando para cima, para o lado, para baixo – tudo isso com caneleiras de três quilos em cada perna. Uma guerreira essa Janete! Todo esse esforço para se sentir (gostosa) bem com aquela calça legging preta que ela usa na lotação que pega no Largo da Batata às seis da tarde, voltando do trabalho. Janete gosta de malhar os glúteos. Quer tudo durinho, no lugar certo. É por isso que fica do ladinho da professora-deusa em todos os exercícios. Quase uma halterofilista. Janete é novinha, vinte e poucos anos. É oxigenada. Não é nenhuma beldade, alguns diriam que está até um pouco acima do peso. Usa óculos e aparelho. Vive sorrindo por aí, simpaticíssima. De vez em quando, bate um papo com a Vera, que fica lá no fundo da sala de ginástica. A Vera é mais tímida, quietinha, linda. Tem uns 30 anos, madura, bem sucedida. Prefere a discrição do fundão da turma. Nessa manhã, antes dos músculos começarem a tremer e as caneleiras ganharem um quilo a mais, um rapaz aparece na porta da sala de ginástica. Vera, que está perto da porta, acha aquilo estranho. Safado. Só quer ver a gente levantando os glúteos. Aposto! Homens são todos cafajestes! Os olhos dele, que parecem procurar com ansiedade por alguém, pousam sob o sorriso metálico de Janete. Ele sorri. Ela se empina como um pavão. Tudo na sala brilha. BUM-bum-BUM-bum-BUM-bum-BUM. FOGOS DE ARTIFÍCIO. Copacabana. 31 de dezembro. Meia noite. Luzes. Meia noite e um. Fogo. Meia noite e dois. Muito fogo. FOGO. Fogo, fogo, fogo. 

“Você veio?”, diz Janete, em tom sensual, sem se dar conta da obviedade da pergunta.

“Eu vim!”, responde o rapaz, que não está nem aí para o óbvio. Os homens nunca estão.

Antes que Vera perceba, Janete e o rapaz começam a se pegar loucamente na frente do bebedouro – atrapalhando a Cida, 75 anos, que só queria tomar um gole d’água antes da aula de RPG. Vera fica chocada. E a Janete nem é bonita, pensou. Nem é bonita! Puxa. Não são nem oito horas da manhã. De onde vem esse fogo todo? Como é que ela beija desse jeito de aparelho? Puxa. Que pouca vergonha. Coitada da Cida, nem consegue chegar ao bebedouro. Vocês não se preocupam com a terceira idade, não? Get a room. God. Vocês dois não têm noções de privacidade? Que absurdo. Que fogo. Que… que… que inveja! QUE INVEJA. Não são nem oito horas da manhã! Que inveja, Janete. Ai, que INVEJA, sua espertinha.

*Dedico a minha amiga Vera Paula, que faz participação especial no conto só porque riu dessa história quando a ouviu pela primeira vez. 

Foto do Leandro Ciuffo. 


Quem passa pelos corredores curvilíneos que ficam embaixo do estádio do Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo percebe logo que a ginástica não é o habitat natural de muitas das intelectuais que frequentam o campus. Uma minoria delas consegue ter um invejável sucesso, dividindo seu tempo entre as leituras de Adorno e às aulas de Step. Outras não são tão bem sucedidas. É por isso que toda aula de ginástica começa com a concentração e o desconforto de algumas dessas moças durante o aquecimento inicial.

Inspira. Muuuummmhhhhh. Expira. Ahhhhnnnn. Ombros para cima. Ombros para baixo. Soltando o pescoço. Palma para um lado. Chute para outro. Mais rápido. 5, 6, 7, 8… vai… Agora puxando com os braços. Coordena o braço com a perna. MAIS RÁPIDO! Concentração. Foco. Braço para um lado. Chute para outro. Ah, eu devia estar na biblioteca. Inspira. Muuuuummmmhhh. Expira. Ahhhhnnn. Podem subir no step. Passo básico. Até agora está fácil. 5, 6, 7, 8…. e, 1, 2, 3, 4….

É assim que as intelectuais começam a aula de ginástica. Desejando ter ficado na biblioteca, mas perfeitamente conscientes que não queriam estar em outro lugar. As intelectuais são inteligentes e sabem que uma boa aula de aeróbica faz bem para o corpo e para mente. O “5, 6, 7, 8…” é um componente fundamental da rotina semanal. Por isso, elas não se importam de deixar a leitura de Nieztsche ou as aulas de estatísticas de lado.

Agora chuta. Faltam só oito. 8,7, 6, 5, 4…. E as intelectuais formam uma coreografia matematicamente perfeita com direito a trilha sonora dançante. Com força. As pisadas se transformam numa marcada percussão. Os tênis esportivos são como baterias em febre. As intelectuais estão em profunda concentração. Elas já começam a sentir os corações acelerando. O sangue quente começa a fluir pelas artérias e as veias se movimentam mais rápido do que um cometa. Tum. Tum. Tum. Tum. Acelera… VAI!!!

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.

E o passo complica. Agora além de chutar, bater palmas e fazer o joelho triplo, as intelectuais têm que mudar o lado do step. A concentração e o foco são imprescindíveis. A intelectual desatenta pode errar bruscamente a pisada e atrapalhar toda a coreografia matematicamente perfeita construída pela professora-deusa. Não se pode pensar Foucault nesse momento. Esqueça o filme do Fellini. Esqueça as aulas de cálculo numérico. Foco. Concentração.

5, 6, 7, 8…. VAI!!!!! Direita. Esquerda. Chutou. Palmas. Joelho Triplo. E, 1, 2, 3, 4… Vergonha. Fracasso. Decepção. Algumas intelectuais erraram o passo e elas sabem o porquê. O corpo está ali presente, mas a mente está na aula de Teoria da Comunicação ou no trabalho História Medieval que deve ser entregue na segunda-feira. As intelectuais destruíram a coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Elas abaixam os olhos. Vergonha. Foco. Concentração.

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.

1, 2, 3 e… UUUUUUU-HUUUUUU!!! O passo foi acertado. As intelectuais descoordenadas voltaram para a coreografia matematicamente perfeita. Elas levantam os olhos e contém o sorriso maroto de vitória. 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1…. e 1, 2, 3… Passo básico. Chuta. Esquerda. Direita. Joelho Triplo. Passo básico em L. Viradinha. Escorrega. 1, 2, 3, 4… e… DIREITA. VAAAAAI! Esquerda. Chuta. Joelho Triplo. Passo básico em L. VAAAAAI! O sangue quente flui ainda mais rápido. O intervalo dos batimentos encurta. TUM-TUMTUM-TUM-TUMTUM. A corrente sanguínea é um cometa dentro das artérias. As veias já esguicham sangue. Os músculos tremem. Os joelhos doem. Os braços dormem. O suor escorre pela espinha. E a corrente sanguínea não páraaaaaa…. Dor. Exaustão. Arrependimento. Biblioteca. Cinema. Godard. Francês. Lingüística. Quinta de manhã. O sangue esquenta. A corrente sanguínea é um meTeORO!!!! AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!

Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. MUUUNHH. AHHHNN.

Endorfina. ENDOrfina. ENDORFINAAAAAA!!!!!!

Eu amo a aula de STEP! 8, 7, 6, 5, 4… Passo Básico. Força. Chuta. Coragem. Mais forte. VAAAAAAaaaI! Direita. Esquerda. Viradinha. Passo básico em L. Joelho Triplo. Escorrega. E 1, 2, 3, 4… Faltam 12. Nãaaao! O sangue esquenta. Eu quero mais. Corrente sanguínea ainda é um meteoro. 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Nãaao! Eu tenho TODA a energia! Desacelera! Não Pára! Eu consigo. Foco. Concentração. Nãaao! Respira. Muuuuummmmhhhhh. Inspira. Ahhhhhhnnnnnn. Desce do step. Água. Água. Água. Água.

Contando os batimentos. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. Água. Água-água. Água. Água-água. Água. Água-água. Parou.

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Solte o ar. Ahhhhhhnnnnnn. Ombro para cima. Ombro para baixo. Solte o ar. Virando o pescoço. Solto o tronco. Lá embaixo. Levanta. É isso, meninas. Boa semana.

E as intelectuais, ruborizadas pela aceleração meteórica da pressão sanguínea, procuram a garrafa d’água. Seiscentos mililitros depois, elas encontram o caminho de casa. Ainda sob efeito da endorfina, elas sorriem com as dores musculares e se questionam se à noite devem ler Guimarães para a prova de sexta ou se será mais prazeroso alugar um filme do Truffaut… Partem. As intelectuais já foram à ginástica.

* A ideia para esse texto surgiu pouco antes da liberação da Endorfina e me custou diversos erros na coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Tento me redimir com a homenagem.

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