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terapia entre amigos

*Baseado em um diálogo real, é quase 100% verdade. QUASE.

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Segunda,  café de fim de tarde, 17h32.

– Li aquele texto do seu blog.
– O “Garotas, como eu…”? Sério? Adoro quando você lê! O que achou?
– Te achei muito melancólica, D’Amaro.
– É sobre amor não concretizado. Tem coisa mais melancólica do que isso?
– E te achei um pouco machista para alguém que se diz tão feminista. Por que é que vocês, mulheres, não podem tomar a iniciativa?
– Não existe a “garota que toma a iniciativa”. Existem caras com quem se consegue tomar a iniciativa, e caras com quem é impossível. Tem que analisar caso a caso.
– Mas é a mesma coisa para nós, homens!
– Não sei porque você tá defendendo esses caras! Você não é um deles!
– Mas já fui.
– Duvido.
– Tô falando. É difícil para a gente também.
– Você não tem o perfil. Você me contou! Foi você quem correu atrás da sua namorada. Você fez TUDO!
– Claro que foi! Se eu não fizesse isso, alguém faria antes de mim!
– É justamente aonde eu quero chegar. Se esses caras realmente gostassem dessas garotas, eles não hesitariam. Homem quando quer uma coisa não hesita. Homem quando quer uma coisa torna aquilo prioridade.
– Mas talvez o cara…
– Sem mas… Você sabe melhor do que eu.
– Enfim… de qualquer jeito, eu acho que você precisa conhecer outro cara, Van.
– Também acho. Mas tô cansada.
– Do quê?
– De sorrir, ser simpática, mexer no cabelo, jogar charme. Ser interessante é um porre.
– Você é louca.
– É sério, não aguento mais! Queria poder contar todos os meus defeitos, todos os meus problemas e falar: “Olha só, é isso. Agora, você sabe. Se quiser, vai ter que encarar assim mesmo. De vez em quando, vai ser legal”. Podia ser assim, não podia?
– Você é louca.
– É que eu só posso verbalizar essas coisas com você, que me entende e é meu amigo.
– Não sei do que você tá falando. Nós somos meros colegas de trabalho, D’Amaro.
– Meros colegas de trabalho? De novo com essa história?
– Já mandei você esquecer esse negócio de amizade.
Homem não se compromete com nada mesmo, né? Nem com uma simples amizade. Vocês são ridículos.
– Não generaliza!
– Uns ridículos! Uns COVARDES!
– Me passa um guardanapo, vai.

Foto de ultrakmi.

FIM.

Foto de Cristina Valencia

Desligou o computador dez minutos antes do fim do expediente e se sentou do lado da mesa dele com a bolsa no ombro e o crachá na mão. Começou o papo falando sobre o tempo e introduziu o tema da noite com “vamos supor que”; “e se”; “caso hipotético”. Queria uma opinião masculina sobre um cara que flertava vez ou outra e sumia na sequência (o que ele quer comigo no fim das contas?). Não deu nomes ou lugares. Ele nem ligou: homens não se importam com detalhes. Ouviu pacientemente e concluiu em forma de metáfora (como costuma fazer).

– Eu acho o seguinte: às vezes, você passa em frente a um restaurante e acha legal, bonito. O lugar tem uma iluminação bacana, umas mesas na calçada… você pensa: “puxa, que restaurante! Quero vir conhecer”. Passa uns dois dias, você decide tentar. Só que dá tudo errado: chove, você fica preso no trabalho, não rola. Você não vai. Mas você ainda quer conhecer o restaurante. Então, dá uma pesquisada na internet, vê que precisa fazer reserva, acha que vai sair caro demais para o seu bolso e pensa: “vou lá no dia do pagamento”. Só que você está cheio de dívidas, decide deixar para o mês que vem. O tempo passa, você acaba esquecendo o restaurante. Você ainda tem vontade de ir lá, mas está ocupado com outras coisas, existem outros restaurantes mais acessíveis e tal… Só que fica aquela curiosidade.

– Curiosidade… é isso!

– Aí um dia, sem querer, você passa de novo em frente e bate aquele sentimento: “por que é que eu nunca vim aqui? Parece ser tão legal”. E aí você fica motivado a tentar de novo, marcar, fazer reserva. Porque você tem aquela curiosidade, sabe? Mas se você nunca passar na frente de novo…

– Você esquece o restaurante.

– Isso. O problema é que se algum dia alguém mencionar esse restaurante, a única coisa que você vai lembrar é que você nunca chegou a entrar.

– Mesmo sentindo toda aquela curiosidade…

– Curiosidade é um negócio que não passa nunca. Só vai passar se…

– É, eu sei bem…

– No amor, é mais ou menos a mesma coisa.

Suspirou aliviada, pegou a bolsa, levantou.

– Bom… preciso ir. Você é um gênio. Obrigada.

Foto de Cris Valencia.

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