Há pôneis

Nos Pirineus, as janelas das casas são incríveis: antiquíssimas, de madeira e até separatistas — uma ou outra está sempre bradando pela Catalunya livre ao exibir com orgulho a bandeira catalã pró-independência, aquela com a estrela. As senhorinhas e os senhorzinhos, de povoados franceses na fronteira com a Espanha, têm seus nomes gravados nos bancos da Igreja, o que garante o lugar fixo nas missas. Os pôneis cavalgam tranqüilos pelas montanhas. Sim, eu disse pôneis. Muitos pôneis. Nunca vi tantos pôneis. Quem diria? Nos Pirineus, há pôneis. Não digam que eu não avisei.

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As fotos são minhas.

 

Meu sonho português

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Estava eu, nesta quarta-feira de cinzas, a caminhar sozinha pelas ruas de Lisboa — que, como eu, também estavam completamente sem companhia. No meu trajeto, do Mosteiro dos Jerónimos ao bairro Alto, encontro com um parente/amigo/conhecido a cada esquina. Todos me perguntam, ansiosos, em desespero, ávidos pela informação:
– Quando é que vamos comer um pastel de nata?

Eu, aflita, digo que não sei quando, nem como…
Eles, frustrados com a minha resposta, desaparecem, não deixam vestígios.
E eu continuo a vagar só rumo ao bairro Alto, em uma Lisboa ensolarada e ao mesmo tempo vazia e triste nesta manhã de feriado de cinzas.

Desperto. Em São Paulo.
Há um oceano de distância de Lisboa.
Um Atlântico inteiro.
Suspiro.

Talvez a vida seja demasiado solitária sem saber quando vamos comer pastéis de Belém de novo.

Por que eu gosto de bolero

Para o meu querido avô Getúlio, o dono do olhar mais generoso do mundo.

Quando o relógio deu oito horas em ponto, eu comecei a chorar copiosamente – sem nem saber que naquele exato minuto, a sua barca partia. Nos reunimos em torno da sua cama, como tantas vezes fizemos ao redor da sua poltrona. E choramos ao invés de rir, como era de costume. O choro nos calou, como nunca fizemos perto de você – apesar de tantos pedidos para a gente falar mais baixo. Aquele silêncio era a sua ausência. E eu preferia ter ouvido um bolero, vô.

Naquele noite, eu dormi na sua casa. Te vi em todos os lugares: nas fotos do corredor, nos porta-retratos, no seu banheiro, em todos os cantos da sala, no seu pente em cima da mesa de centro, no seu colírio do lado do telefone, no seu remédio na bancada da cozinha, no seu jornal em cima do lixo. Te vi dentro da geladeira quando eu fui pegar uma água, te vi no seu iogurte preferido, na sua margarina com ômega 3, no seu leite de soja, na sua bolacha diet. Te via em todo aquele silêncio. Te via em toda aquela ausência. Mas eu preferia ter ouvido um bolero, sabe?

Quando os seus amigos vieram se despedir de você, eu te vi em todos eles. Te vi nas suas piadas, nas suas festas, nos seus sorrisos, nos seus olhos azuis acinzentados e generosos– porque, depois dos 80 anos com Parkinson, a gente não economiza sentimento. Te vi na tia Lucy, na Sônia e na Lili. Te vi na sua irmã. Te vi no Neto, no Gustavo, no Guilherme, no Gabriel, no Fernando. Te vi na vó. Te vi no meu pai, no Getulinho, na tia Marilena. Te vi na minha mãe, na Beth, no tio Antônio Carlos. Te vi em todo lugar, em todo o silêncio. Te vi onde não te escutava, onde eu não te ouvia. Mas preferia ter ouvido um bolero, vô, você sabe.

Hoje, eu decidi ouvir um bolero. Aquele que fala da barca que tem que partir; aquele que fala sobre despedidas, sobre a distância, sobre as saudades. Aquele que você me ensinou, lembra? O seu bolero preferido. O meu preferido. O nosso bolero, vô. Vou ouvir o nosso bolero hoje e sempre que eu pensar em você. Acho que eu vou ouvir esse bolero todos os dias da minha vida, vô. Tudo bem por você?

Garotas, como eu; caras, como você

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Caras, como você, adoram distribuir cavalheirismos para garotas, como eu. Dizem que nós somos lindas, nos dão carona até em casa, nos acompanham até o carro, nos ajudam a colocar o casaco, tocam nos nossos cabelos, tiram sujeira dos nossos rostos, conversam conosco perto demais, nos observam por tempo indeterminado, sorriem sempre ao nosso lado. Caras, como você, insistem que garotas, como eu, são incríveis e merecem o melhor do mundo. Caras, como você, costumam chamar garotas, como eu, de amigas, e imputam todo e qualquer romantismo a essa amizade, repleta de gentilezas. Garotas, como eu, ficam confusas e não sabem o que responder quando amigos, como os nossos, questionam a validade desta amizade. Caras, como você, agem com indiferença aos boatos.

Caras, como você, morrem de medo que a relação com garotas, como eu, seja mais do que um flerte sem veredicto. Caras, como você, acham que garotas, como eu, dão muito trabalho. Garotas, como eu, esperam desiludidas que caras, como você, tomem uma decisão, uma iniciativa, uma atitude. Aguardamos na mais profunda solidão, mentimos para nós mesmas, somos ingênuas, nos decepcionamos. Garotas, como eu, concluem que caras, como você, não devem estar tão interessados assim. E desistimos. Não sem antes perder o rumo, se embebedar de vinho e se vingar puxando papo com o moço mais bonito da festa – muito mais bonito do que você. Garotas, como eu, são a companhia perfeita para homens lindos e inteligentes, como ele. Garotas, como eu, precisam de homens, como ele, para esquecer caras, como você.

Caras, como você, acabam se declarando para garotas, como eu, somente sob efeito etílico. Garotas, como eu, não se esquecem disso. Nós nos lembramos muito bem. Caras, como você, fingem amnésia. Nos evitam, somem, voltam a nos tratar como amigas. Garotas, como eu, desistem. Desistimos. De novo. Essa falta de atitude mata.

Caras, como você, conhecem outras garotas pela internet, se apaixonam perdidamente em dois dias e mudam o status do facebook em uma semana. Caras, como você, permanecem teoricamente felizes até que se lembram que existem garotas, como eu.  E rompem. E nos ligam. E nos acompanham até o metrô. E nos elogiam. E nos observam exaustivamente. Morrem de medo da gente. Não tomam qualquer atitude. Cansamos. Desistimos. Mais uma vez. Re-pe-ti-da-men-te. E suspiramos, exaustas. Caras, como você, nunca conseguem se apaixonar de fato por garotas, como eu. Caras, como você, não foram feitos para garotas, como eu. Caras, como você, e garotas, como eu, nunca, nunca, nunca vão dar certo. Fim.

Foto de Maxwell GS.

Milão, resquícios

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Felipe disse que queria passar esse feriado em Milão. Eu ri. Ele quer passear na via Torino, andar no Parco Sempione, freqüentar os restaurantes de Brera e atravessar o Castelo Sforzesco para chegar ao Duomo. Ah, o Duomo! Fico me lembrando dele todo iluminado naquela segunda-feira chuvosa e fria de abril. Eu vi o Duomo de dentro de um taxi naquele dia. Meus olhos se encheram de lágrimas, eu disfarcei. Não queria que a Silvinha me visse emocionada, não ainda. Ah, Milão! A Villar me viu na fila do café hoje; contou que ainda não viu todas as fotos da viagem dela à Itália depois daquela nossa semana em Milão. “Quero ver essas fotos também, Villar. Não se esquece de me mostrar?”, pedi. Chorei no ombro da Villar tarde da noite, numa quinta-feira, perto da Via Mazzini. Ela me achou uma louca.

Eu vou a eventos de design e decoração e me encontro com a Patricia, a Denise, a Ana. Todas elas estavam no mesmo hotel em que eu e a Silvinha ficamos. São boas lembranças. Queria ter visto a Chris na Casa Cor. A gente só se viu uma vez depois de Milão, puxa. Ainda não descarreguei as minhas fotos do Sforzesco. Ainda não vi as fotos do nosso almoço no lago di Como, estava tão frio naquele dia.

Vivi tanta coisa e não consigo escrever ainda sobre isso. Olho para o teclado e não consigo descrever o que Milão me deu. Não consigo explicar esse conjunto de sensações. Fecho os olhos e só me lembro das pessoas. Do descolado Marcel Wanders (que nos deu uma entrevista brilhante) a Janete, brasileira que cuidava do café da manhã no hotel Canadá. Lembro-me do Enzo, o segurança napolitano que me ajudou a recuperar a minha máquina fotográfica perdida num espaço de exposições gigante. Enzo ganhou um abraço apertado e me viu chorar de felicidade, sem entender porque as lágrimas só vieram quando a câmera voltou para a dona. Lembro da dificuldade de bater um papo em inglês com os designers japoneses. Lembro daquelas moças muçulmanas de véu que desenhavam lustres lindos e estavam orgulhosas de representar o Egito na feira. Às vezes, penso naquele mocinho madrileno que me contou que na casa da sua avó todas as cadeiras são de balanço, por isso ele investiu nelas para apresentar em Milão. Que graça!

Encontrei meu celular italiano na bolsa e pensei no Mirko e na Giulia, os simpáticos e solícitos funcionários da Tim que resolveram a minha vida. Saudades da Michela, a cinegrafista italiana que foi um anjo da guarda durante aquela semana. Fico me lembrando daquela tarde em que ela percebeu que a chiesa Santa Maria presso San Satiro estava aberta. “Ti faccio vedere una cosa”, me disse antes de mostrar que o altar desta igreja (que é mais antiga que a chegada de Colombo às Américas) é um dos trabalhos pioneiros em perspectiva – tudo isso, assim no meio do dia, antes de voltarmos para o espaço CASA CLAUDIA, na Santa Maria della Valle.

Procuro as minhas fotos, passo pela imagem que fiz da linda Rossana Orlandi no seu spazio shabby-chic, como ela mesma definiu. Fiquei louca para saber a idade dela, mas não perguntei porque li a plaquinha: “Le donne intelligenti hanno gli anni che decidono di avere”. Que linda! Aquela sexta-feira foi fantástica e a Silvinha concorda comigo. A Silvinha foi a melhor amiga e companheira de viagem do mundo. Gosto tanto dela. Não sei nem como agradecer por tudo. Não consigo explicar o que eu aprendi lá.

Fico com saudades de Milão, do que entendi sobre mim, de como eu me achei. Tento rascunhar, escrever algumas linhas sobre a experiência, mas não dá. O que ficam são as pessoas, essas lembranças, esses sentimentos, essas lágrimas. Fui corajosa. Tive medo. Tudo junto.

Quero escrever sobre isso. Por que eu não consigo? Volto, mais uma vez, para as minhas fotos. As pálpebras seguram as lágrimas. Milão, você me emociona tanto!  Como é que eu conto para os outros? Como eu explico? Não dá. Não consigo traduzir, desenhar, detalhar. Abro meu armário, vejo a camiseta que usei no vôo de volta. Como foi que o Massimiliano, o Casanova da Alitália, me achou bonita vestindo isso? O número de telefone dele ainda está num bilhetinho dentro da minha bolsa. Rio sozinha dessa história. Grazie, Milano, muito obrigada! Te vejo de novo um dia. Volto pela terceira vez, prometo. Italia, amore mio, ritorno subito. Ti giuro! 

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silvinha e felipe.
silvinha e felipe.
revista.
revista.
villar.
villar.
piazza del duomo.
piazza del duomo.
rossana orlandi.
rossana orlandi.

Clarice Lispector entrevista Vinícius de Moraes

[Trecho do livro “Clarice Lispector – Entrevistas“, um dos melhores presentes que eu já ganhei. Esta entrevista é tão linda que merece ser guardada e registrada]

Clarice Lispector entrevista Vinícius de Moraes

– Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?

-Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

– Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.

– O fato de querer me comunicar tanto.

– Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?

– Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.

– Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?

– Para mim é a mulher, certamente.

– Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.

– Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

– Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos uma pausa. Ele continuou:

– Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…

(Emocionei-me e entendi que este homem sabe envolver uma mulher de carinho.) Vinícius disse, tomando um gole de uísque:

– É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

Paris, aos (quase) 30

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O seu nome ecoa na minha cabeça enquanto eu te espero no lobby do hotel Metropol. Está frio em Paris, cinco graus. Não era para estar tão frio. Eu visto um casaco pesado por cima de um vestido preto com decote em V e manga comprida. Eu uso o cabelo da Veronica Lake. Você aparece de calça jeans, camiseta e blazer. Você está com um cachecol xadrez e uma boina idiota que você comprou em uma ladeira de Mont Martre.

Nós descemos a Rue de Maubeuge de braços dados tarde da noite. A gente passa pelo café em que eu aprendi a pronunciar eau, água. O supermercado Champion já está fechado. Nostalgia. A gente caminha na Maubeuge até chegar na rue La Fayette. A gente passa pela galeria e vê a Ópera Garnier pelos fundos. Você não acha a menor graça nisso. Eu adoro descobrir o prédio pelo lado errado. Eu gosto tanto dessa Ópera. Você sabe disso. Você me puxa pela mão e me leva até os degraus da entrada. É quase um tapete vermelho. Meu coração acelera. Eu sou Maria Callas em noite de estreia. Nós dois rimos do meu devaneio. Isso é ridículo. Podia ser noite de ópera. Podia. E saímos gargalhando juntos pela rue de la Paix.

Quando nos damos conta, já estamos na Place Vendôme. Está frio. Eu tiro o meu casaco e jogo na calçada. Ele não vale nada aqui na frente da Dior. Eu danço por nós dois. Você não hesita. Você dança junto. Assim sem música mesmo. Você toca guitarra imaginária, eu toco violão. Eu danço MPB. Você dança rock progressivo.

Eu começo a gargalhar da nossa falta de ritmo. Os seguranças franceses do Ritz viram os olhos para nós dois. Turistas. Você ri comigo, tira o seu cachecol, coloca ele no meu pescoço, me pega pela cintura e encosta a sua testa na minha. Você está tão perto que fica fora de foco. A gente dança um bolero. Eu imagino No me platiques mas; você acha que é Besame mucho. Eu canto com o meu espanhol capenga. Não tem nada de parisiense nisso. Nós dois somos ridículos. Um casal passa de bicicleta em direção a rue de Castiglione e ri da nossa criancice. E eu vou fazer trinta anos, acredita? Quase 30. Falta pouco para eu chegar lá. Não falta nada para você. Mas hoje nós temos quinze, como eu tinha quando estive aqui pela primeira vez. Eu e você. A mesma idade. Só por hoje. Sua boina idiota cai no chão enquanto você me rodopia perto do Obelisco. Eu sorrio. Você me tomba para a direita. Olho no olho. Eu faço tudo o que você disser. Você devia se casar comigo. O que é que a gente está esperando? Sua boca chega a meio centímetro da minha. Meus lábios te esperam. Você sorri. Meu despertador toca.

Eu acordo com os lábios em febre. Levanto de pijamas e vou até a cozinha tomar um copo d’água. Nós não estamos mais em Paris. Eu estou sozinha. Você ficou no I arrondissement. São seis e doze. Voltei a ter 25 anos. Quando a água cair no estômago, vai ser só terça-feira. Vai ter trânsito. Vai ter reunião às três da tarde. E eu só vou me lembrar que eu sonhei de novo com Paris, com aquele hotel, com a rue de Maubeuge. Como sempre. Eu já não me lembro mais de você, de nós dois. A vida é cruel. O cotidiano esmaga os nossos sonhos. A realidade é estreita. Às dez da manhã no elevador da firma, eu aperto o quinto andar e eu já não me lembro de mais nada. Engraçado sonhar com Paris. Lábios ardendo. Por que será? Que coisa louca! Opa, é o meu andar…

foto de jean louis zimmermann.