Estúpido cupido

Quando conheceu Tadeu, ela estava muito ocupada flertando com Jorge. Tadeu era perfeito para ela – feito sob medida! – e o flerte com Jorge era inocentíssimo: conversas bobas seguidas de risos contidos. Ela sabia bem e Jorge nunca escondeu de ninguém: ele amava Érica. Um dia ele e Érica iriam se casar, ter filhos e envelhecer juntos. Mas, enquanto este romance não engatava de vez, ele se divertia trocando olhares por aí. Tadeu era diferente. Ele só tinha olhos para uma moça de cada vez. Ele só queria alguém que topasse ver um filme italiano, tomar um vinho e planejar outro mochilão pelo velho continente. Era tudo o que ela queria também! Ah, mas os olhares do Jorge… Quando a Érica resolveu dar uma nova chance para o rapaz, ela se debulhou em lágrimas lamentando todos os risos contidos que eles nunca mais poderiam dividir. E Tadeu estava lá: livre, gentil, educado. Foi entre as gargalhadas dos amigos numa mesa de bar que ela finalmente o notou: tão perfeito! Conversaram sobre arte, literatura e filosofia. Gargalharam quando descobriram que tinham os mesmos ídolos de infância. Alguns dias depois, Tadeu a convidou para ir a uma festa com ele. Ela já tinha compromisso. E tudo foi por água abaixo! Entre um gole e outro, Tadeu conheceu a Priscila. Magra, cabelos curtos, três anos mais jovem, artista plástica. Priscila nunca pisou na Europa e não entendia nada de filme italiano. “Vou te emprestar um DVD do Monicelli… Ah, você vai adorar Roma”, ele disse. Uma troca de telefones depois e Priscila já foi conhecer a sogra. “Eles formam um lindo casal”, é o que ela ouve por aí sobre os dois. De vez em quando, Tadeu escreve para ela perguntando como andam as coisas ou comentando um filme que assistiu. Ela responde educadamente e suspira – amaldiçoando o Cúpido por tanta maldade.

*Link original da foto: Cupid, myrrh.ahn

As intelectuais vão à ginástica


Quem passa pelos corredores curvilíneos que ficam embaixo do estádio do Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo percebe logo que a ginástica não é o habitat natural de muitas das intelectuais que frequentam o campus. Uma minoria delas consegue ter um invejável sucesso, dividindo seu tempo entre as leituras de Adorno e às aulas de Step. Outras não são tão bem sucedidas. É por isso que toda aula de ginástica começa com a concentração e o desconforto de algumas dessas moças durante o aquecimento inicial.

Inspira. Muuuummmhhhhh. Expira. Ahhhhnnnn. Ombros para cima. Ombros para baixo. Soltando o pescoço. Palma para um lado. Chute para outro. Mais rápido. 5, 6, 7, 8… vai… Agora puxando com os braços. Coordena o braço com a perna. MAIS RÁPIDO! Concentração. Foco. Braço para um lado. Chute para outro. Ah, eu devia estar na biblioteca. Inspira. Muuuuummmmhhh. Expira. Ahhhhnnn. Podem subir no step. Passo básico. Até agora está fácil. 5, 6, 7, 8…. e, 1, 2, 3, 4….

É assim que as intelectuais começam a aula de ginástica. Desejando ter ficado na biblioteca, mas perfeitamente conscientes que não queriam estar em outro lugar. As intelectuais são inteligentes e sabem que uma boa aula de aeróbica faz bem para o corpo e para mente. O “5, 6, 7, 8…” é um componente fundamental da rotina semanal. Por isso, elas não se importam de deixar a leitura de Nieztsche ou as aulas de estatísticas de lado.

Agora chuta. Faltam só oito. 8,7, 6, 5, 4…. E as intelectuais formam uma coreografia matematicamente perfeita com direito a trilha sonora dançante. Com força. As pisadas se transformam numa marcada percussão. Os tênis esportivos são como baterias em febre. As intelectuais estão em profunda concentração. Elas já começam a sentir os corações acelerando. O sangue quente começa a fluir pelas artérias e as veias se movimentam mais rápido do que um cometa. Tum. Tum. Tum. Tum. Acelera… VAI!!!

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.

E o passo complica. Agora além de chutar, bater palmas e fazer o joelho triplo, as intelectuais têm que mudar o lado do step. A concentração e o foco são imprescindíveis. A intelectual desatenta pode errar bruscamente a pisada e atrapalhar toda a coreografia matematicamente perfeita construída pela professora-deusa. Não se pode pensar Foucault nesse momento. Esqueça o filme do Fellini. Esqueça as aulas de cálculo numérico. Foco. Concentração.

5, 6, 7, 8…. VAI!!!!! Direita. Esquerda. Chutou. Palmas. Joelho Triplo. E, 1, 2, 3, 4… Vergonha. Fracasso. Decepção. Algumas intelectuais erraram o passo e elas sabem o porquê. O corpo está ali presente, mas a mente está na aula de Teoria da Comunicação ou no trabalho História Medieval que deve ser entregue na segunda-feira. As intelectuais destruíram a coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Elas abaixam os olhos. Vergonha. Foco. Concentração.

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.

1, 2, 3 e… UUUUUUU-HUUUUUU!!! O passo foi acertado. As intelectuais descoordenadas voltaram para a coreografia matematicamente perfeita. Elas levantam os olhos e contém o sorriso maroto de vitória. 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1…. e 1, 2, 3… Passo básico. Chuta. Esquerda. Direita. Joelho Triplo. Passo básico em L. Viradinha. Escorrega. 1, 2, 3, 4… e… DIREITA. VAAAAAI! Esquerda. Chuta. Joelho Triplo. Passo básico em L. VAAAAAI! O sangue quente flui ainda mais rápido. O intervalo dos batimentos encurta. TUM-TUMTUM-TUM-TUMTUM. A corrente sanguínea é um cometa dentro das artérias. As veias já esguicham sangue. Os músculos tremem. Os joelhos doem. Os braços dormem. O suor escorre pela espinha. E a corrente sanguínea não páraaaaaa…. Dor. Exaustão. Arrependimento. Biblioteca. Cinema. Godard. Francês. Lingüística. Quinta de manhã. O sangue esquenta. A corrente sanguínea é um meTeORO!!!! AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!

Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. MUUUNHH. AHHHNN.

Endorfina. ENDOrfina. ENDORFINAAAAAA!!!!!!

Eu amo a aula de STEP! 8, 7, 6, 5, 4… Passo Básico. Força. Chuta. Coragem. Mais forte. VAAAAAAaaaI! Direita. Esquerda. Viradinha. Passo básico em L. Joelho Triplo. Escorrega. E 1, 2, 3, 4… Faltam 12. Nãaaao! O sangue esquenta. Eu quero mais. Corrente sanguínea ainda é um meteoro. 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Nãaao! Eu tenho TODA a energia! Desacelera! Não Pára! Eu consigo. Foco. Concentração. Nãaao! Respira. Muuuuummmmhhhhh. Inspira. Ahhhhhhnnnnnn. Desce do step. Água. Água. Água. Água.

Contando os batimentos. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. Água. Água-água. Água. Água-água. Água. Água-água. Parou.

Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Solte o ar. Ahhhhhhnnnnnn. Ombro para cima. Ombro para baixo. Solte o ar. Virando o pescoço. Solto o tronco. Lá embaixo. Levanta. É isso, meninas. Boa semana.

E as intelectuais, ruborizadas pela aceleração meteórica da pressão sanguínea, procuram a garrafa d’água. Seiscentos mililitros depois, elas encontram o caminho de casa. Ainda sob efeito da endorfina, elas sorriem com as dores musculares e se questionam se à noite devem ler Guimarães para a prova de sexta ou se será mais prazeroso alugar um filme do Truffaut… Partem. As intelectuais já foram à ginástica.

* A ideia para esse texto surgiu pouco antes da liberação da Endorfina e me custou diversos erros na coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Tento me redimir com a homenagem.

Não repare a bagunça!


Ela abriu a porta do seu escritório.

– Pode entrar, só não repare a bagunça! –disse.

Entrei, e me fixei perto da porta. Ela se dirigia à mesa de estudo, que ficava a menos de um metro de onde eu estava. Deu o primeiro passo em linha reta, logo em seguida virou um pouco para a esquerda, desviando da enorme caixa de papelão que estava a sua frente. A sandália surrada que usava parecia conhecer o caminho de cor. Sem hesitar pulou para a direita, desviando da enorme pilha de livros. Mais uma pilha de livros também à direita (essa batia na altura do joelho), e mais um rápido desvio. Até que a jornada a mesinha teve um final feliz.

Fitei, então, a mesinha. Inúmeros papéis de bala jogados formavam uma moldura em volta do caderno de anotações, do teclado do computador e até mesmo dos documentos empilhados. Um relógio velho que provavelmente não funcionava mais. Uma borracha já bastante usada. Várias canetas. Alguns lápis. Clipes. Cds. Disquetes. Vi também uma escova de cabelo. Os inúmeros fios presos nos dentes da escova denunciavam que o cabelo fora bastante escovado, bastante penteado. (Curioso! Não era o que aparentava).

– Mas não está aqui! Onde pode estar? – disse e olhou para mim.

Fiz cara de desentendimento.

Ela se dirigiu ao armário. Eu já estava amedrontada, mas ansiosa, a curiosidade era grande. Ela abriu o armário. Rapidamente colocou o braço sobre os livros que ameaçaram cair. Pela rapidez do movimento, conclui que não era a primeira vez que tal manobra era executada.

O armário seguia os mesmos padrões da mesinha. Livros, e mais livros. Papéis, muitos papéis. Mais documentos, canetas. Ela, então, ameaçou abrir a outra porta do armário. Decidi fechar os olhos, eu não queria mais julgar sua forma de organização. Fechei. E meu olho direito, deu uma espiada no ambiente. Abri os olhos. Numa fração de segundos imaginei o que viria por de trás daquela porta do armário.

Ela abriu a porta do armário, e mais livros empilhados, mais documentos, até mesmo um agasalho de lã estava ali. Foi quando eu vi! A sandália surrada daria um passo para trás e derrubaria toda a outra pilha de livros que ficava na frente da porta do armário! No impulso, quase gritei: “Cuidado! Você vai derrubar os livros!”.

Não o fiz. Não por falta de educação ou delicadeza, mas porque achava que a minha interrupção não faria diferença. Além disso, fiquei muito interessada no que aconteceria caso a sandália surrada derrubasse a pilha de livros…

E a sandália surrada derrubou a pilha de livros. Ela nem olhou para trás. Tinha achado o meu papel perdido. Com um sorriso de satisfação, veio entregá-lo a mim. Pulou mais uma caixa de papelão. Desviou dos livros derrubados, sem olhá-los, eles agora faziam parte da decoração. Desviou de uma pilha de livros à direita, desviou novamente. Desviou de mais uma pilha de livros, dessa vez à esquerda. E entregou-lhe em minhas mãos. Eu agradeci e me retirei…

“Não repare a bagunça” ela me disse.

*A foto de .pst veio daqui.