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Arquivo da tag: Bruce Springsteen

IMG_4187Quase novembro e eu nem tirei férias. Não vou tirar, não em 2013. Esse ano voou. “Espero que 2014 seja o ano das férias de 30 dias”, prometo para mim mesma. Faço a mesma promessa há quatro anos. “2014 podia ser ano de prosperidade de novo, né?”, sonho em voz baixa no trabalho. Quem sabe assim a gente sai dessa tensão corporativa. Uma amiga diz que, em época de crise, demissão é a melhor coisa que pode acontecer, que assim a gente se obriga a se reinventar. Concordo. Outra amiga diz que nessas horas, a gente precisa se apegar ao que está fora daqui. Concordo também. Tiro o meu domingo para ir visitar meu avô. Quando eu chego, eu não sei se ele sabe quem eu sou. Minha mãe me disse que ele não está reconhecendo todo mundo mais. Não é Alzheimer. São as complicações da insuficiência cardíaca e do maldito Parkinson. As pessoas não têm noção do quão triste é essa doença. Parkinson não é só tremedeira, é muito pior. Ele te mata todo dia um pouquinho, te destrói silenciosamente, mas nunca é o autor do golpe final. Meu avô foi diagnosticado com Parkinson há mais de doze anos e vem sendo tratado com os melhores médicos, os melhores remédios e o melhor trabalho de fisioterapia. Não adianta: essa maldição não tem cura. Por causa do coração, ele já foi internado mais de dez vezes nos últimos seis anos. Nós decoramos o caminho até a UTI do Hospital do Coração, sabemos na ponta da língua quais são os horários de visita. A gente está cansado de saber como tudo funciona. Meu avô tem um marca passo, mas ainda assim o coração não aguenta. O Parkinson só deixa tudo pior, e ainda tem a diabetes descontrolada depois da última internação. Meus tios alugaram uma cama de hospital para colocar no quarto dele. Para garantir que ele não vai cair à noite. A cama chega na segunda-feira. Minha avó está uma pilha de nervos, não há rivotril que acalme. Meus tios e meu pai passam o tempo livre lá. Toda vez que eu apareço eu encontro com um dos meus primos. A casa é sempre cheia. Meu avô tem tudo, mas sofremos juntos, ficamos irritados, estressados, tristes. Empurramos a cadeira de rodas, ligamos a TV no futebol. Será que o vô ainda sabe que o São Paulo está jogando? Meu pai e meu tio discutem na sala com meu primo. Brigam por causa do São Paulo e do Corinthians. Minha avó lamenta na cozinha.

– Ando muito cansada, Vani. Envelhecer não é fácil.

– Eu sei, Vó.

– Seu outro avô saiu do hospital também, né?

– Saiu.

– Ele está melhor?

– Está indo. Quem é que está bem hoje em dia, Vó?

– E, no trabalho, está tudo bem?

– Já te contei que estou fazendo aula de dança, Vó?, desconverso.

Eu não sou de beber, mas nunca tomei tanta cerveja quanto nesse ano. Tomar cerveja e reclamar que o amor não vem me faz um bem danado. Só quero falar disso, só quero escrever sobre isso. Enquanto eu reclamo do amor, eu não fico pensando nesse maldito Parkinson. Não fico pensando se algum de nós herdou essa praga, se a gente vai ter esse mesmo destino. Romance é só distração. Amor de verdade é esse desespero na beira de uma cama hospitalar. É isso que a gente talvez nunca vá achar. É por isso que a gente é exigente.

Minha tia me narra as dificuldades daquela semana, as atrapalhadas, os erros, as confusões. Estão todos esgotados.

– Estamos todos doentes, Vanessa. Todos!

– Eu sei, tia.

Pego as minhas coisas, dou um beijo no meu avô. “Volto semana que vem, vô”. Ele não diz nada. Não sei se ele se lembra de mim. Será que vai ser sempre assim agora?

– Você trouxe um casaco, Vani? Esfriou agora.

– Não trouxe, mas está tudo bem, Vó. São Paulo tem um clima maluco, estou acostumada.

– Não vejo a hora do verão chegar de vez.

– Estamos todos precisando de um pouco de sol, né, Vó?

Entro no carro, rezo para novembro chegar logo. Para a gente ter um descanso, uns dias de paz, de sol. Quero culpar outubro por tudo isso. E não quero ter esperança porque ela é traiçoeira. Precisamos de fé. Só isso. Ligo o rádio… eu conheço essa música. É Bruce Springsteen. Obrigada.

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